terça-feira, 8 de novembro de 2016

MINIMUM - A Busca

Afinal, porque buscá-lo nos céus, nas laudas de um livro, nas palavras dos homens? Por qual motivo carecemos de evidências, grandes feitos, milagres? Seria a vida simples demais, banal demais para não enxergarmos em si o maior dos milagres? Seríamos vaidosos e egoístas em excesso para notá-lo através da grandiosidade do mundo que nos cerca? Continuamos seguindo à risca palavras vazias, enquanto demolimos sua obra, pregando o ódio, destruindo vidas, extinguindo a natureza, enterrando a paz.

sábado, 3 de setembro de 2016

Demônios modernos para o homem moderno


Escrito a partir de 1500 a.C., o livro mais vendido da atualidade também vigora entre os mais antigos da categoria e o mais longo a ser finalizado, aproximadamente 1600 anos até a versão que conhecemos atualmente. Mesmo três mil e quinhentos e poucos anos depois, a Bíblia continua sendo um livro de referência para a sociedade contemporânea, transcendendo o limite das religiões e moldando a base da moral e da ética ocidental como a conhecemos. Três mil e quinhentos anos atrás. O alfabeto com o qual escrevo esse texto, estava nos primeiros estágios do nascimento. Os caracteres que transmitem a mensagem da Bíblia hoje em dia datam de apenas algumas décadas de distância dos primeiros escritos do livro. O tempo parece não ser um problema para a imortalidade bíblica. A questão é entendermos o porquê.

As sagradas escrituras cristãs apresentam algumas características únicas, muito interessantes quando as olhamos de um referencial privilegiado: elas são um conjunto de linguagens, separadas por centenas de anos e diferentes estruturas sociais. E como uma linguagem, a Bíblia é uma ferramenta para se transmitir todo tipo de informação. Mostro-lhes um enxerto que descreve a ira de Deus Todo-Poderoso àqueles que não obedecem as suas regras, seguido por uma sequência de leis retiradas a dedo de alguns livros do Velho Testamento; moldo um perfil social específico. Em outro momento separo passagens de Jesus pregando o amor como bilhete de entrada no paraíso e uno-as com uma frase do Levítico que dita o amor homem-mulher como o verdadeiro amor de Deus; moldo outro grupo de pessoas. O que faz da Bíblia um livro único e imortal é o fato dela ser multi-interpretativa, muitas Bíblias em uma só, cada uma compatível com o perfil de alguém em algum período histórico.

A teologia da prosperidade é um exemplo contemporâneo, contrastando Pastores neopentecostais e padres Franciscanos, como se ambos seguissem diferentes ensinamentos, deuses diferentes. São duas visões do mesmo texto. Assim como grupos no Facebook, as religiões atraem pessoas que pensam de forma semelhante, interpretam as escrituras com um ponto de vista comum e ignoram aquilo que não as convém. Os cristãos querem e buscam o melhor dos dois mundos: onde os pecados são apenas aquilo que não fazem parte de seu comportamento e o caminho correto para o reino dos céus é o estilo de vida que levam. Uma cegueira intencional, na qual os demônios estão nos outros e não dentro de cada um deles; na qual a vaidade e o orgulho de serem os únicos convidados para a ceia do Senhor são apenas detalhes inconvenientes.

A Bíblia moldou (e ainda molda) o mundo, mas as sociedades têm um poder igualmente grande para dizer o que está lá escrito. É chocante pensar que o mesmo texto que guiou a Inquisição da Idade Média hoje arrasta multidões da Renovação Carismática. Não é difícil concluir que o mesmo pode ocorrer com os outros demais fundamentalismos mundo a fora. Basta um pouco menos de preconceito, um pouco mais de visão fora da caixa.

A Bíblia se mostrou, ao longo de inúmeras gerações, ser o mais poderoso dos escritos: Deus descrito pelas mãos de homens, para ser lido pelos homens e interpretado por grupos de homens. E a palavra de Deus é soberana; a palavra do Senhor é incontestável. Amém!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O paradigma da existência


"Desculpe pelo inconveniente". Como um atendente de telemarketing mal-humorado de uma operadora telefônica, fingindo que se importa com o cliente que ligou para reclamar do corte de seu pacote de dados de internet, essa é a mensagem que Douglas Adams descreve como a Mensagem Final de Deus para Sua Criação. Um inconveniente, a fonte de todas as inconveniências, sem o qual não existiria nada que pudesse achar as outras coisas igualmente inconvenientes ou ainda mais inconvenientes do que ele próprio. Ou ela. A vida: a fonte de todos os problemas da Humanidade.

Problemas esses que se tornam problemas de fato pela irritante mania dos humanos de problematizarem situações que por si só não deveriam passar de acidentes existenciais não-problemáticos do universo, dentro do espaço infinitesimal correspondente a esse planetinha azul e branco que não tivemos o desprazer de nunca termos conhecido. Está claro, por exemplo, que não haveriam tantas guerras se as pessoas parassem de simplesmente seguir livros escritos a milhares de anos por diversos descendentes de primatas distintos (mesmo sendo da mesma raça) e começassem a observar mais atentamente o semelhante sendo esbofeteado do outro lado da rua, do tipo "Ah, poderia ser eu, não é?". É claro, também, que não haveriam tantos computadores quebrados e muitos reais desperdiçados se não existissem telas azuis em seus monitores, fato que, também por uma invenção humana, pode significar a perda de muitas horas de trabalho e paciência. Escavadeiras estão entre os outros possíveis exemplos, mas aí seria aprofundar muito o debate.

Resumindo, a vida é o maior dos inconvenientes. Porém, como não existe alternativa possível para resolver os empecilhos causados por ela, nos basta aceitá-la e acatar o pedido de desculpas da forma menos dolorosa possível, nem que isso inclua insônia, altas doses de Prozac e algumas sessões de terapia oriental com o mestre Xian Gu. Mesmo as formas de vida mais evoluídas do planeta, como os golfinhos e as formigas, não conseguem encontrar uma solução fácil para esquivarem-se da vida, seja enterrando seus companheiros ou mesmo piruetando por aí. Pelo menos as formigas não seguem rituais ultrapassados nem usam computadores, mas têm seus próprios problemas, como a melhor forma de carregar uma bala de Halls até a rainha ou ainda como construir um formigueiro deslumbrante, sem que nenhum idiota enfie seu sapato Louis Vuitton nele e destrua o trabalho de meses, como uma tela azul no mundo das formigas. Elas também são muito mais altruístas com seus colegas de espécie, diga-se de passagem, e não entendem de forma alguma o quanto um sapato Louis Vuitton do colega pode ser mais bonito que o seu Prada, mesmo ambos de modelo equivalente, mesmo ambos sendo de muito mal gosto.

Concluindo (isso se for possível concluir essa reflexão, dada a vastidão abrangente do horizonte desvelado por ela), seria de bom grado se os seres autoconscientes do universo conhecido aproveitassem da liberdade com a qual foram castigados a conviver e se desculpassem mais um com os outros, deixando de lado o seu minúsculo banquinho do orgulho, no qual insistem a ficar ajoelhados para não parecerem altos demais (mesmo cabeceando a cintura de um anão), e estendessem a mão às demais formas de vida que sofrem do mesmo destino: viverem até o momento de suas mortes. Quanto menos desagradável for essa trajetória, menos frustrado ficará o Criador e mais desnecessário será seu pedido de desculpas.

sábado, 23 de julho de 2016

A escolha de Julieta


Naquela noite em Verona eis que surgia Julieta, vestida de gala, na formosura de seus 14 anos; uma jovem mulher, como descrita pelo autor inglês. A festa que acontecia em um salão da mansão dos Capuletos era uma vitrine. O anfitrião solicitou a presença das grandes famílias da região e suas jovens donzelas com o intuito obscuro de provar ao conde Páris que nenhuma delas se equiparava a sua filha, a qual deveria ser sua prioridade como esposa. Julieta foi a festa a mando do pai; arrumou-se como ditava a tradição; portou-se como uma aristocrata italiana deveria agir; foi aprovada pelo conde, que a optara como futura mulher e com quem iria casar-se em breve, sem objeções. Julieta não escolheria seu destino, ele era ditado pelo homem chefe da família. Já enunciava sua Ama: "Se algum dia eu puder ver-te casada, Julieta, é tudo o que eu mais desejo. Um homem engrandece a mulher", completada pela jovem, "É uma honra com a qual jamais sonhei". No entanto, naquela mesma festa, irrompe-se Romeu.

O jovem Montecchio, metediço naquela noite, apaixona-se pela imagem da menina Capuleto. Ao abordá-la sente-se correspondido, trocando beijos em meio à multidão lá presente. Voltam a encontrar-se naquela mesma noite, quando Romeu a chama na varanda de seu quarto, a famosa cena do balcão, onde proferem juras de amor. Julieta, pela primeira vez, sente o gosto da independência. Casar-se com o rival de sua família é uma afronta ao pai, uma desonra aos Capuletos, mesmo assim ela segue em frente. Com o decorrer da peça, a jovem decide abandonar a família e a nobre vida de Verona para fugir com seu amor, uma dura decisão guiada pela paixão.

É senso comum dizer que a felicidade é diretamente proporcional à noção de liberdade de escolhas. Mas é fácil também percebemos a angústia que nos causa uma decisão com muitas opções. Quando nos restringimos, diminui-se a frustração de optarmos pelo errado, pois não tínhamos muito para onde fugir. No caso múltiplo, a variedade causa angústia, aflição e, após o erro, decepção e arrependimento. Será que Julieta teria escolhido Romeu se tivesse saído com Benvólio? Se tivesse passeado no bosque com Mercúcio? Se tivesse experimentado uma noite de amor com Baltazar? Assim como em toda a alta sociedade europeia do século XVI, Julieta teria um casamento arranjado e poderia se sentir extremamente feliz, pois estava dentro da conformidade, não seria marginalizada por ser diferente. Ao conhecer Romeu, suas possibilidades aumentaram, suas fronteiras expandiram e sua noção de felicidade não era mais a mesma.

Quem sabe, se o plano do Frei Lourenço tivesse sido um sucesso e o casal fosse viver longe de Verona, Julieta não se arrependesse. Talvez ela presumisse que seria mais feliz com o amante Montecchio, simplesmente por nunca ter vivido um momento de infelicidade em sua nobre vida. A felicidade é baseada em comparações. Vivemos momentos infelizes, esperando e idealizando aqueles que nos despertariam alegria. Julieta buscou a sua felicidade naquele instante, talvez de forma inconsequente, mas buscou. Não esperou cair do céu, não postergou. O presente é onde a vida acontece, não o incerto futuro.

Vivemos e temos apenas uma certeza, uma lição também transmitida por Shakespeare em sua peça. Ao ver seu amado morto aos seus pés, Julieta toma sua última decisão, a mais difícil de todas. Sua prova derradeira de amor, que não foi presenciada por seu esposo. Encarar a morte é o mais natural dos desafios, porém o mais perverso. Aceitá-la, uma questão de maturidade. Julieta a abraça, sem medo, sem receio. Seus atos nos ensinam uma valiosa mensagem, a que deveria ser lema para uma vida que vale a pena ser vivida: seja feliz, ou morra tentando.

terça-feira, 19 de julho de 2016

MINIMUM - Leitura

Sob uma campânula de cristal, abro um livro. Como em uma fenestra de um casarão, admiro o entorno, imerso em momentânea amnésia dos contratempos diários. Página, capítulo, binóculo, espelho. Reencontros com emoções esquecidas, soluções perdidas, paixões deslembradas. Leitura: um incêndio insulado no cerrado. Pós cinzas, a vida renasce. Uma válvula de escape: fujo de mim, para ver-me de fora. Fecho o livro, acendem-se as luzes, limpam-se as lentes. Tudo está mais claro; tudo está mais confuso.

sábado, 9 de julho de 2016

Quis custodiet ipsos custodes?


"Quem guardará os guardiões?". Em suas sátiras, Juvenal buscava descrever e escancarar os podres da sociedade romana dos dois primeiros séculos pós-cristãos. Envolto por um caos político, social e religioso, a Roma Antiga já sentia sua decadência, uma exaustão de um regime impopular e desacreditado. Ao questionamento do autor, Sócrates já havia proposto soluções. Mas o que sempre persiste é a objeção: afinal, quem nos protegerá daqueles que se denominam nossos protetores?

Imersos em uma crise de representatividade em escala global, o mundo clama por um sistema de liderança que transcenda esse sentimento geral de isolamento entre os governantes e a sociedade. Os Estados relutam, o povo sente.

Na imagem, as ruas voltam a mesma interrogação do poeta romano, em uma versão mais contemporânea. Quem irá vigiar os próprios vigilantes?

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Um povo de palha


Na Terra de Oz, o Espantalho é uma figura bastante peculiar. Acredita que ter um cérebro é a única coisa que pode fazê-lo um ser inteligente igual aos demais povos daquele mundo. Afirma-se ignorante durante todo o início da história, mesmo pensando e tendo ideias da mesma forma que os outros personagens cefálicos os fazem. Ao ser enganado pelo Mágico de Oz, o boneco de pano ganha um falso cérebro, um placebo, que o faz sentir-se inteligente, sem nem um neurônio a mais. Esse poder instantâneo recebido o torna um ser confiante de si e que tudo sabe, tudo pensa, prepotente em diversas situações. O simples fato de crer-se sabido o transforma, sem tirá-lo da mediocridade intelectual anterior.

Reflito, portanto, se não seria o Espantalho um retrato caricato da sociedade brasileira, uma criatura recheada de palha, com andar cambaleante, mas capaz de grandes feitos. O que seria de Dorothy sem seu fiel parceiro?