sexta-feira, 20 de julho de 2018

Laranja Mecânica e a origem da violência


Alex é um garoto delinquente, líder de sua própria gangue de nadsats, em uma Inglaterra de um futuro próximo tomada por uma onda de ultraviolência e medo. Esse é o universo que Anthony Burgess introduz nos primeiros capítulos de sua obra-prima, Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, no original). Lançado a mais de meio século atrás, em 1962, o escrito de Burgess sobre seu mundo distópico é uma das mais aclamadas obras do gênero, com diversas adaptações em filmes, teatro e seriados. O narrador e personagem principal da trama, o nadsat (adolescente, na linguagem criada por Burgess) Alex, de apenas quinze anos, vive em um mundo em que a violência impera. O narrador e seus druguis envolvem-se em todo o tipo de ato brutal e impiedoso que nós, como leitores, temos detalhadamente descritos por uma perspectiva de um narrador que participa ativamente de tais bestialidades. Apenas na primeira das três partes do romance é possível presenciar cenas de evisceração em brigas de rua, assalto a lojas, estupros violentos, roubos a domicílios e homicídio. Nosso narrador, como era de se esperar, é pego pelos miliquitas (polícia, nas gírias nadsat) e passa um tempo na prisão. Uma das cenas mais marcantes do livro inglês, eternizado nas telas de cinema por Kubrick, é o tratamento recebido pelo garoto para “curar” seus impulsos violentos.

Forçado a assistir cenas de violência extrema (como as que ele costumava praticar com sua gangue), Alex recebe doses de químicos responsáveis por causar mal-estar simultaneamente às imagens transmitidas. A ideia era clara: associar o seu estado físico deplorável, causado por tais drogas, com a violência, fazendo com que seus impulsos hostis não despertassem o prazer que costumava sentir no passado. As autoridades presentes no romance tinham um plano para erradicar a violência e Alex era a cobaia: “curando” os bandidos, estupradores e ladrões, o crime se extinguiria. Nesse ponto, meus caros, que Anthony Burgess levanta uma das maiores reflexões de sua obra, um debate presente até os dias atuais: a violência como um problema moral ou social.

Não é preciso nos mexermos muito para encontrarmos exemplares humanos que creem que a violência em si de é de origem moral, assim como pensa o governo de Laranja Mecânica. Soluções autoritárias como castração química para estupradores ou pena de morte partem do pressuposto que o crime só existe devido aos desvios de conduta daqueles que os cometem. O que de certa forma é razoável de se concluir. Afinal, se não existissem criminosos, quais crimes temeríamos? Por isso soluções simples como extermínio ou correção permanente são tão atrativas àqueles que vislumbram apenas a superfície da problemática, principalmente quando sofrem com essa violência, vítimas assoladas pelo medo, como as classes mais abastadas do romance de Burgess (conseguem traçar um paralelo com nosso presente?).

A aplicação da técnica foi um sucesso, Alex não suportava mais qualquer ato que o fazia pensar em agressividade, inclusive autodefesa. Tinham extraído essa parte de sua natureza orgânica, agora programada para fazer o bem. Fora da prisão, dois anos depois da sua entrada, o narrador tenta retomar sua vida, sem receber nenhum apoio do Estado para que o faça. Estava solto novamente, dentro da mesma sociedade que o criara. O resultado não poderia ser outro: desamparado por uma família ausente e incapaz de se proteger de seus antigos inimigos, Alex torna-se um ninguém, socialmente marginalizado, sendo agora sua vez de sofrer nas mãos de uma polícia ostensiva e despreparada, colegas com quem tinha inimizades e sem saber o rumo que tomaria sua vida. Tenta, inclusive, a solução final, saltando de um prédio alto, sem sucesso. O ciclo se fecha e o autor retorna ao questionamento original: qual a real origem da violência?

O mergulho profundo sob a problemática apresenta a violência como resultado de uma sociedade endemicamente violenta. O prazer de Alex em cometer atrocidades vai além da pura satisfação pessoal e moral, mas fruto de um contexto que permeia o cotidiano do narrador. A reeducação moral não é o suficiente, como Burgess destaca, pois além de não resolver o problema da origem da violência (outros “Alexes” mais jovens estão florescendo desse perverso jardim), cria-se outra complicação social em relação àqueles que forçosamente tiveram suas vontades extraídas e deixados à deriva. Um estuprador castrado ainda tem a cabeça de um estuprador, mesmo tendo seu corpo alterado a força, e assumirá um papel social como tal. Um bandido morto pelo Estado pode deixar uma família desamparada, possível semente de uma nova geração de violência. O que o autor inglês nos apresenta é a transcendência, além da máscara do medo e da solução simples. E além de tudo, que a violência urbana trata-se de seres humanos maltratando seres humanos. O que leva uns a serem vítimas e outros, os réus? Basta matar uma dúzia de formigas para exterminarmos o formigueiro?

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Sugiro fortemente a leitura integral do texto de Burgess. O autor ainda discute temas como autoritarismo, violência policial, uso da linguagem, entre outros. Mesmo sendo uma obra impactante no primeiro contato (inclusive pela linguagem nadsat usada pelo narrador o tempo todo, criada pelo autor inglês), a leitura da obra é rica em temas de grande relevância para os dias atuais e vale cada esforço despendido em sua compreensão. Suas adaptações, em especial a de Stanley Kubrick de 1971 para o cinema, também apresentam ótimas perspectivas para acalorar esse debate.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Pelos olhos de uma criança


Do alto da janela de sua mansão, Bruno olhava sem entender o que acontecia do lado de fora. Uma grande cerca o separava de centenas de pessoas, que curiosamente usavam os mesmos pijamas e chapéus listrados. Não era justo, pensava o menino alemão, que ele tinha que ficar sozinho naquela casa, cercado por muitos adultos chatos e estressados enquanto a poucos metros de distância existiam muitas e muitas crianças com quem ele poderia brincar, aproveitar a tarde e jogar futebol. Em outro universo vivia Gui, um menino de classe média brasileiro que recebe a notícia de que sua irmã mais velha sofreu um acidente de carro, tornando-a paraplégica. Lembrando de quando pegou uma bronquite, ficando semanas na cama assim como a irmã, esperava ansiosamente o dia em que ela se curasse e voltasse a andar, podendo brincar com ele novamente. Não entendia, porém, o porque dos adultos evadirem o assunto abruptamente toda vez que ele demonstrava suas esperanças. Esses dois acontecimentos remetem-se a duas ótimas obras de literatura juvenil, O menino do pijama listrado, de John Boyne e Estrelas tortas do brasileiro Walcyr Carrasco. Para os adultos, no entanto, essas obras contam mais do que uma história pelos olhos de uma criança, descrevem, além de muitos outros aspectos, como o filtro do preconceito funciona, como estamos fadados a enxergar o mundo através dele e como ele se constrói ao longo do tempo.

Bruno tinha oito anos, a irmã mais velha, doze. Um dia, entediado e solitário, o alemão busca a irmã querendo respostas. "Eles são judeus, Bruno", responde a irmã, "Nós não gostamos deles". "E nós somos judeus?", o garoto replica, sendo prontamente interrompido pela menina "Não! Não diga isso". "Mas se não somos judeus, o que somos?", novamente questionando sobre as pessoas de pijama listrado isoladas pela cerca. Para essa pergunta, no entanto, a menina não soube o que dizer. Ficamos afônicos quando paramos para pensar no real motivo por agimos de forma estranha com pessoas que nem conhecemos ou acabamos de conhecer. O filtro do preconceito age sem nos darmos conta de sua existência e é esse um dos principais motivos de pessoas preconceituosas não se identificarem como tais. Essa falta de percepção, que Bruno ainda não possuia, está atrelada a dois fenômenos sociais muito similares, que são a estereotipação (normalmente a origem do preconceito em grupos humanos) e a conformidade social (o que o mantém vivo e blindado). O jovem alemão, em sua visão infantil está além dos estereótipos, não entende o que há de diferente entre ele e seu amigo, Shmuel, isolado do outro lado do campo de concentração. Não se conforma com essa segregação, pois não vê sentido no que os adultos fazem, impedindo-os de brincar e se divertirem juntos. A situação é inocente; a mensagem é forte e poderosa. Em que se baseia o preconceito?

Yuval Harari, em seu livro Sapiens, introduz um debate pertinente de como a rotulação e classificação segregadora dos seres e objetos no ambiente em que vivemos desde os primórdios foram necessários para a manutenção do gênero humano no planeta. Em outras palavras a classificação de algo como "Estranho/mantenha a distância" e "Comum/se aproxime" é o modo mais simples que o cérebro dos Sapiens tem em garantir sua autoconservação. Por esse modo, não é exagero dizer que o medo e o preconceito são como dois lados da mesma moeda, provenientes de um mecanismo cognitivo comum. Apesar disso, destaca o autor israelita, os Sapiens conquistaram o mundo por sua adaptação à vida coletiva e capacidade única de unir grandes povos, de acordo com as condições em que viviam em cada época. Um questionamento importante pode ser colocado nesse contexto: o preconceito ainda é um mecanismo necessário para manutenção da nossa vida em sociedade?

Como vencer o preconceito, já que ele ainda é vivo e latente em nosso cotidiano? Gui, um dos narradores do livro Estrelas tortas, nos dá, na simplicidade da visão infantil, um caminho a seguir. Ao voltar para a escola em uma cadeira de rodas, sua irmã Marcella, antes uma das atletas mais queridas entre os estudantes, sofre rejeição instantânea por seus colegas adolescentes. O garoto, por outro lado, não compreende com clareza a reação dos amigos. A irmã mais velha estava doente, deprimida, mas continuava com a mesma personalidade de antes, porque as coisas estavam tão diferentes? O que Gui sentia pela irmã talvez seja a chave para rasgarmos os filtros estereotipadores que se formam ao nosso redor: empatia. A dificuldade (ou o desconforto) de colocar-se na pele alheia, de vestir os óculos dos outros, principalmente dos estranhos, pode ser doloroso, então evitamos a todo custo carregar esse fardo.

Assim como crianças que vão ao parquinho da praça para brincar e se divertir com todos, independentemente das aparências, da classe social ou do gênero, pode uma vida sem preconceitos ser mais leve, divertida e prazerosa. Basta um certo esforço cognitivo, que no começo pode parecer exaustivo, e desassociarmos o medo às aparências. Os livros de Carrasco e Boyne apresentam diversos debates importantes além do recorte aqui destacado, utilizando a narrativa infantil como um ponto de vista distinto, permitindo ver o óbvio muitas vezes entocado em um ponto invisível nas situações do dia a dia. Leituras simples e fluidas, mas que pesam a consciência dos adultos e nos convidam para um interessante experimento de empatia.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A grife Apple: da inovação ao luxo


Em meados da década de 1970, Steve Wozniak construiu seu primeiro computador para uso pessoal. Estudante da Universidade da Califórnia, o jovem Woz assumia a vanguarda da inovação digital em uma das regiões mais fervorosas para a computação nos Estados Unidos, o Vale do Silício. Em parceria com um colega alguns anos mais jovem, Steve Jobs, os dois garotos venderam seus bens mais preciosos e arrecadaram a incrível quantia de 1300 dólares, o suficiente para que Wozniac e Jobs projetassem o que é considerado por muitos o primeiro modelo de um computador pessoal acessível ao mercado, o Apple I. Desse ponto a empresa dos Steves decolou. Modelo após modelo, os computadores da Apple dominavam cada vez mais um mercado que eles próprios criavam, sempre buscando o novo, o inovador, a tecnologia de vanguarda. Jobs declarava explicitamente que a base da sua companhia era de ditar tendências tecnológicas, buscando soluções simples para facilitar a vida das pessoas. Esse era o mantra do fundador da empresa. Hoje, aparentemente, uma ideologia que mostra-se apenas particular de seu patrono.

A Apple sempre foi uma empresa de inovações. Inovadora não necessariamente significa que era original em todos os seus produtos. Jobs, Woz e seus colegas eram conhecidos como os Piratas do Vale do Silício, por sua ousadia em aproveitar as ideias desenvolvidas nesse ambiente fértil do florescer de novas tecnologias em seus dispositivos. O mouse, por exemplo, utilizado pela primeira vez em um computador pessoal no Apple Lisa, não era de propriedade criativa (nem patente) de um dos fundadores da empresa da maçã. No entanto, foi com a inserção do roedor nessa versão do computador no mercado que o modelo do apontador cartesiano se popularizou, tornando-se indispensável para o uso moderno de PCs. O caráter inovador da Apple era de tomar as rédeas da tecnologia e dominar o mercado com base nisso. A genialidade de Jobs ia muito além de desenvolver dispositivos e chips poderosos: ele conhecia como popularizar, tornar acessível e revolucionar o mercado da computação mundial. Foi assim com o Apple I; foi assim com o iPhone; foi assim com o iPad. Mas a macieira não colhe mais dos mesmos frutos.

Toda essa retrospectiva é a base para um debate interessante sobre o destino da empresa de smartphones mais famosa do mundo e, como consequência, o rumo do mercado de informação no planeta. Neste final de ano, Tim Cook anunciou o mais novo mobile da companhia, o iPhone X, com um preço base assustador de mil dólares. Para uma comparação direta, a maior concorrente da Apple, a Samsung, tem seu mais moderno smartphone por 200 dólares a menos. O que o CEO da maçã nos quis dizer com isso, afinal? Sem nenhuma grande novidade que justificasse o preço elevado do dispositivo, a Apple se projeta a um novo nível, além de suas origens, além do Vale do Silício. De olho nos números de seus concorrentes coreanos e chineses, a empresa de Cook assume o poder sobre sua marca e toma uma decisão que pode ser a última grande inovação da companhia: elevar-se (ou rebaixar-se) ao lado de grandes grifes mundiais. Uma cartada genial de uma empresa criadora de mercados. Afinal, qual outra marca produz portáteis de luxo?

Há alguns anos a maçã mordida ganhou um valor de status social além do que poderia sequer ser imaginado por Wozniak, nem em seus sonhos mais capitalistas. No revés de grandes companhias de inovação como a Tesla ou o Google, a Apple nos chama a atenção de como o mercado é dominador sobre a produção de conhecimento tecnológico. Uma lição importante que pode-se tirar do anúncio da empresa de Cupertino é, acima de tudo, como a tecnologia (principalmente na computação) dia após dia abandona suas origens inclusivas e life-changing de grandes mentes como Linus Torvalds e se curva aos índices que sobem e descem em Wall Street. Nesse contexto, podemos refletir sobre o que a informação se tornou e como o mercado de dados é um negócio cada dia mais lucrativo e invasivo; como as pessoas passaram a valorizar a computação como instrumento de ostentação e autoafirmação, nos moldes de joias e carros esportivos; e acima de tudo, o que pode nos aguardar, já que nos entregamos cotidianamente a essas empresas em troca de algum novo tipo de conforto que dizem poder nos propiciar.

E que acreditamos, quase sempre, sem questionar.

                       ---- Publicado originalmente pelo autor em <http://penseegratis.org/>

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Muita informação, pouco cérebro


Não é novidade que nossa vida deixou de ser particular há um tempo. Propagandas personalizadas enquanto navegamos na rede, sugestões de onde passar o sábado a noite ou as férias de verão são apenas alguns exemplos sutis de como nosso cotidiano é constantemente monitorado, uma versão orwelliana de não-ficção. Em 2013, Edward Snowden apenas escancarou uma verdade indigesta, que insistíamos em esquivar: podemos ter nossa vida totalmente mapeada apenas com nosso uso corriqueiro da Internet. Foi nesse mesmo ano, no entanto, que a cidade americana de Boston sofreu um dos maiores atentados terroristas de sua história, com a explosão de duas bombas durante a tradicional maratona. Essa sequência de acontecimentos revela uma realidade que apequena o Grande Irmão que nos observa. Geramos toneladas virtuais de bytes de informação a cada milissegundo em todo o planeta, mas não chegamos nem perto de processar todos esses dados e extrair alguma informação relevante de todos eles.

Essa avalanche de dados que geramos todo dia, em nossos mais de 5 bilhões de dispositivos móveis, é conhecida como Big Data e é o mais novo desafio na era contemporânea da computação. A grande dificuldade no processamento do Big Data reflete uma das características da sociedade informatizada pós-moderna que resume-se na rápida obsolescência e perda de relevância de tudo que geramos. Os dados digitais são o exemplo mais ilustrativo desse processo. Do que adianta a mim como empresa saber se meus clientes pretendiam comprar meus produtos em 2011? Quem gostaria de receber sugestões de onde comer no almoço as cinco horas da tarde? Do que importa a NSA (agência de segurança estadunidense) identificar o plano do atentado de Boston nas redes dois meses após o incidente? No processamento do Big Data o importante é o agora, análise imediata de informação. Coletar e armazenar esses dados é etapa mais simples do processo. Entender o que eles significam em conjunto, em grande escala é um obstáculo que nem os gênios da ficção científica puderam prever.

Para entendermos na prática a dificuldade em realizar a interpretação do Big Data, podemos usar uma ferramenta gratuita do Google que registra as tendências de busca em sua plataforma ao longo dos anos, o Google Trends. Comparando as tendências para os termos “Lula”, “Geraldo Alckmin” e “Tiririca” encontramos picos de nos anos de 2006, 2008, 2010, 2014, por exemplo. Nos últimos anos, por outro lado, esses termos aparecem em alta por diversos momentos aleatórios. A análise desses dados é trivial para um humano brasileiro e politizado. Os pontos principais de citações e buscas na internet relacionados aos nomes dessas personalidades deve-se ao fato de que esses anos são datas eleitorais e esses indivíduos, políticos. Além disso, o turbilhão político de instabilidade que o país vive atualmente é refletido no padrão de buscas do Trends, observando os dados dos últimos anos. Parece simples, mas ensinar um software a realizar essa análise sem intermédio humano, cruzar todas as informações relevantes (e descartar as relações inúteis) transcende o limite da simplicidade, é extremamente complexo de ser realizado, especialmente em tempo real. Finalmente, é necessária uma análise das conclusões obtidas. Mais buscas recentes de nomes de políticos significa necessariamente que o brasileiro tem se tornado mais engajado politicamente? Dado o histórico dos anos eleitorais, o brasileiro só se interessa por política em períodos de eleição? Nossos algoritmos antropólogos ainda estão distantes de chegarem a esse socrático grau de interpretação.

O que a CIA pôde nos mostrar em 2013 (e continua demonstrando, se olharmos atentamente) é que, mesmo com acesso aos maiores bancos de dados do planeta, a maior parte dessa informação não passa de pulsos elétricos em transistores dentro de um computador. Assim como um livro para um analfabeto, as informações estão lá, esperando para serem lidas. Como um jogador de truco que consegue ver todas as cartas do oponente e mesmo assim perde várias partidas, a informação bruta pouco interessa sem que seja conectada e aplicada de forma adequada ao contexto a que pertence. O Big Data apresenta um horizonte praticamente infinito de novas descobertas quanto ao comportamento do gênero humano, podendo mudar profundamente as sociedades modernas. Imagine viver em um mundo cujas suas experiências cotidianas são adequadas aos seus gostos pessoais, em tempo real? A matéria prima existe, flutua sobre nossas cabeças, basta uma fábrica bem equipada para transformá-la em um produto. Ou nos transformar nesse produto.

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terça-feira, 12 de setembro de 2017

A Terra é plana!


Sentado sobre a areia da praia, voltado para o oceano que se abre na minha frente, consigo avistar o horizonte, uma linha reta se estende por todo o meu campo de visão, demarcando os limites entre o céu e o mar. Uma visão semelhante do mundo tinha Aristóteles e Pitágoras, mirando o Mediterrâneo, por volta dos 300 a.C. A sensação é óbvia: estamos sobre um tablado, um piso de comprimento infinito, exceto por algumas montanhas ou ilhas no caminho. Nosso sistema sensorial age, nosso cérebro processa a perspectiva captada por nossos olhos e tira sua primeira conclusão, a terra é plana! Porém, meu caro leitor, você pode ficar surpreendido como sua mente é falha e amadora, principalmente para questões não triviais, e como um pouco de esforço cognitivo pode alterar a visão que temos do mundo e das situações cotidianas. Nesse caso vamos conversar sobre o planeta e, assim como os Gregos antigos, superar o impulso involuntário de planificar nosso globo mãe.

    → Por que a terra é plana?

Basicamente o cérebro humano é o mesmo desde a Idade da Pedra. De lá para cá pouco se alterou na biologia do órgão comandante da nossa espécie, desde nossos tempos de caçadores e coletores primitivos. Reagimos rapidamente aos estímulos provenientes de eventos externos sem muita reflexão sobre o que está realmente acontecendo. A seleção natural fez sua parte: os Sapiens que agiam dessa forma sobreviveram aos ataques de leões na savana e passaram seus genes adiante, enquanto os pobres retardatários viraram alimento dos felinos e sua falta de reflexos morreu com eles. Nossos ancestrais detectavam com facilidade movimentos nos arredores, seja uma pedra prestes a cair de um penhasco ou o local no gramado onde o coelho saltador pousaria após o pulo, pronto para ser apanhado. Em outras palavras, a física newtoniana era de entendimento imediato da nossa espécie primitiva. Felizmente herdamos essa capacidade, o que nos permite dirigir um carro em alta velocidade ou andar de bicicleta sem dificuldades, por exemplo. Mas nossa compreensão da macrofísica e da nanofísica, dos grandes corpos celestes ao núcleo dos átomos, é pouco intuitiva e exige esforço cognitivo, capacidade de abstração e grandes doses diárias de matemática.

Em um país onde o conhecimento de matemática aplicada não excede 4% da população, fica clara a tendência de aparecimento dos terraplanistas. Eratóstenes mediu o raio do planeta experimentalmente a 2200 anos em um experimento simples (vale uma pesquisa no YouTube, não?), mas que transcendia o ceticismo. Estações do ano, passagem dos dias, fazes da lua, por exemplo, são observadas/sentidas a todo instante pelos seres sencientes do planeta azul. No entanto, a compreensão básica das leis da inércia [3], formação dos astros e gravitação deve ser compreendida com base em experimentos realizados e replicados por milhares de cientistas ao longo dos anos e em modelos matemáticos muito bem definidos. Entendido, não sentido.

    → Por que dizem que a Terra é redonda?

Não é necessário nada além de uma leitura do primeiro módulo de mecânica clássica para concluir que a terra plana viola alguns dos princípios básicos da física Newtoniana (momentos de inércia e efeito giroscópico são boas leituras). Aristóteles e seus contemporâneos já tinham como certa a ideia da esfericidade do planeta, conceito que expandiu-se durante o período helenístico e perdurou até a modernidade (pesquisas contemporâneas destacam que mesmo durante a Alta Idade Média, na eclosão da revolução científica, quando os heliocentristas eram perseguidos pela Igreja, os intelectuais da época admitiam que o formato grego do planeta fazia sentido). É em um contexto de pós-verdade que tentaram passar um rolo compressor sobre a Terra.

Nossas ideias e visões do mundo são formadas com base em nossas emoções e sentimentos. Ratificá-las ou refutá-las é um trabalho cognitivo posterior e deve ser realizado de forma consciente. No momento da modernidade em que vivemos (em especial com a ascensão das redes sociais e da internet) juntar-se a um grupo de indivíduos com ideias semelhantes as suas é algo realizado automaticamente por algoritmos internos das grandes redes, tornando plausível a validação de ideias absurdas. É dentro dessas bolhas que a terra plana e outras teorias conspiratórias ganham força: unindo a pós-verdade e indivíduos pouco dotados de conhecimento científico de qualidade, em ambiente enviesado para confirmação das ideias e falta de confronto de opiniões.

    →  Faça você mesmo!

É dito aos ventos que a internet não criou os idiotas, mas uniu e deu voz a eles. Porém nenhuma hipótese deve ser descartada antes de ser testada. Por isso proponho um desafio aos terraplanistas: formule um novo modelo ao nosso adorado planeta Terra. Sobre esse novo modelo, aplique os conceitos da Física conhecidos e expanda o conhecimento da humanidade sobre o nosso lar. Francis Bacon já dizia que conhecimento é poder. Enquanto os recursos naturais e as vidas humanas são limitadas, o conhecimento pode expandir-se infindavelmente. Cientistas não temem a dúvida, por mais indigesta que ela pareça, por ser fundamental para a expansão do saber científico. A certeza, na maior parte dos casos, é uma limitação. Por isso, meu caro conspiracionista, não é a mim que você deve se dirigir e tentar convencer, mas toda a humanidade e a comunidade científica. Alguns fizeram isso, como Galileu, e mudaram o mundo. Quem garante que você não pode fazer o mesmo?

                       ---- Publicado originalmente pelo autor em <http://penseegratis.org/>

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Fendas na normalidade


Em sua recém-lançada trilogia para o público jovem, Ransom Riggs introduz ao mundo o seu universo fantástico. Baseado em sua coleção de fotos antigas, o autor relata as aventuras vividas por um grupo de crianças peculiares, cada uma apresentando alguma característica que as diferem dos seres humanos, digamos, convencionais. Os personagens são únicos e caricatos: um menino invisível convive diariamente com uma garota de força sobre-humana e um rapaz que é constantemente assolado por sonhos agoureiros, além de diversas outras personalidades presentes ao longo da trilogia. A trama principal circunda exatamente as peculiaridades de cada um e a dificuldade da inserção e aceitação das crianças em sociedade. O universo peculiar, no entanto, apresenta locais seguros, as fendas temporais, onde as personagens encontram refúgio e que, ao decorrer da história, vão desaparecendo e deixando-os desamparados perante o mundo real. A grande questão levantada pelo autor não poderia ser mais clara: como uma minoria pode ser aceita em sociedade fora do seu "gueto social"?

O preconceito é um dos grandes males da modernidade. Presente em todas as fases da existência da raça humana, o pré-julgamento alheio ganhou escala global e grande poder de disseminação com o advento da internet, em especial com a força da pós-verdade em um ambiente em que todos têm voz. A internet e as redes sociais uniram o preconceito ao anonimato, dando poder ao ódio aos diferentes, que antes ficava restrito àqueles que teriam coragem de se expor e, eventualmente, serem publicamente reprimidos. As crianças peculiares viviam isoladas, não por conta de se comportarem de forma diferente das crianças comuns, mas por alguns traços (por exemplo, característica física) que causava medo às pessoas não peculiares com as quais entravam em contato. O medo, uma das grandes bases do ódio, origina o preconceito. O medo é passional e irracional e não pode ser vencido sem uma grande dose de esforço cognitivo.

Como bem destacou Daniel Kahneman em seu grande livro Rápido e Devagar - duas formas de pensar, tomamos a maior parte de nossas decisões de forma automática, sem utilizar a nossa consciência, que entra somente em uma análise posterior das situações, se necessário. Essa condição nos diz muito sobre o processo de construção do preconceito, que ocorre com base nos sentimentos e, como já destacado, no medo que o diferente pode causar aos ignorantes. A tríplice do preconceito é clara: medo gera ódio, que é fortalecido pela ignorância. O preconceito de qualquer espécie, seja racismo, homofobia, antissemitismo é uma expressão de ódio poderosa, pois une as pessoas ao redor de um "inimigo" comum, disseminando a desinformação, fortalecendo a pós-verdade e eliminando o senso crítico, a única forma de quebrar o ciclo vicioso.

As doces crianças peculiares sofrem na pele a rejeição da sociedade, principalmente antes de serem resgatadas para as fendas temporais, com inúmeros casos de violência e torturas, físicas e psicológicas. É fácil fazer paralelo com a realidade. Homossexuais podem ser gays, desde que não sejam efeminados ou demonstrem afeto público, pois não tem o direito de serem livres, já que eu me reprimi durante toda a vida; negros podem trabalhar e serem meus amigos, mas ator negro, advogado negro e médico negros são incompetentes e foram colocados lá por cotas, já que esses papéis de destaque na sociedade só podem ser dos brancos por mérito; os peculiares podem existir, desde que trancados dentro de casa, pois tenho medo que meu estilo de vida que eu pertenço e domino seja ameaçado de alguma forma.

Se a falta de conhecimento é uma das bases do preconceito, apenas a informação pode romper essas barreiras de convivência e mostrar que, no fundo, todos temos nossas peculiaridades e que, como Ransom Riggs bem destaca, a única coisa que impede que vivamos pacificamente em sociedade é o desconhecimento. Cada vez mais as fendas temporais se dissolvem e os peculiares ganham seu espaço. Cada vez mais o preconceito deve perder o seu.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Poética


Ser poeta é um dom, eu diria. Escrever poemas não é uma tarefa fácil. Digamos que os poetas conseguem algo que muitos têm bastante dificuldade, colocar no papel seus sentimentos, de uma forma que não só agrade aos leitores, mas a ele próprio. O que seria do mundo se todos nós fôssemos poetas? Se todos tivessem a facilidade de expressar nossos sentimentos e liberar nossas angústias de maneira que não precisássemos guardá-las em nossos corações e deixando-as nos consumir de dentro pra fora, até afetar todos ao nosso redor? Bom, todos nós temos um lado poeta, com certeza. Fazemos poesia o tempo todo, seja com palavras amorosas para quem temos afeto ou apenas com pensamentos estranhos que vão e vêm. Sem nos darmos conta, nossa mente virou um livro de poesias, tão bonitas e profundas como as obras mais geniais de Drummond, mas tão inalcançáveis como os grandes sonhos de Vinícius de Moraes. Sentimentos são tão indescritíveis que, às vezes, quando paramos para refletir sobre eles, não chegamos a nenhuma conclusão. Sentimentos devem ser sentidos, não pensados. Por isso que admiro os poetas, não só por conseguirem fazer com que palavras (simplesmente palavras) ilustrem, mesmo que vagamente, seus sentimentos mais profundos e indelicados, mas também por tornar esse pequeno universo que ronda suas mentes, um motivo para que nós tentemos (e muitas vezes, consigamos) entender o nosso.

         --- TEXTO PUBLICADO EM MARÇO DE 2014