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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Performance


Extenuados e dopados. Absortos na exaustão, no esgotamento físico e em uma irreal desconexão neural. Um mergulho irresponsável às profundezas da capacidade humana de manter a sanidade. Buscar e expandir um limite elástico, atingir um infalível ponto de ruptura. Sob efeitos de cafeína e de antipiréticos, estamos em busca do limite, aquele que nos ensinaram ser inalcançável e sempre distante o suficiente para tornar-se indistinguível do futuro previsível. Não sente-se o corpo pulsar energia e disposição no agir, mas seu antônimo, um dreno de potência, uma singularidade do não-poder. Sob o apoio e o clamor dos demais, somos motivados a nos sentir dessa forma, como se o vigor e a pura contemplação fossem luxos restritos aos desocupados e vagabundos. Dessa forma, é possível sentir a deterioração do bel-prazer, por mais que nada que nos conduz a essa condição de ressaca existencial seja imposta em oposição a nossos desejos. Muito pelo contrário, nos jogamos ao nosso próprio abismo.

Byung-Chul Han atribui ao “poder fazer” a responsabilidade de querer o inalcançável. Isto é, a um excesso de positividade e auto-cobrança, que nos torna escravos de nós mesmos, pois nos é apresentada uma falsa ilusão de ilimitação. As condições exploratórias de servo e senhor, que por mais de milênio se impunha como a principal forma de submissão e controle de uns sobre os outros, agora torna-se inerente às próprias pessoas, sendo cada um, ao mesmo tempo, a vítima e o réu. Essa dialética individual aflora como uma autocobrança, uma autoexploração consciente, na qual as supostas liberdades do indivíduo o faz pensar superpoderoso, sendo suas vitórias e fracassos decorrentes apenas de suas atitudes. Han contrapõe essa liberdade positiva aos grilhões negativistas de um mundo boomer que pautava-se na imposição externa de regras de comportamento, em que a possibilidade de falar “não” era existente. Nesse caso, o ilimitado poder fazer era sobrescrito por um dever imposto, havendo sempre a ameaça deste ser desafiado por indivíduos ou coletivos que sentiam essa negatividade como um parasita, uma reação de auto-defesa.

Nessa relação de contradição interior que leva a exaustão, esconde-se, como em outros momentos da história, uma luta de narrativas e visões ideologizadas de sociedade. Impor a lógica do poder fazer como uma maneira de impulsionar o desempenho e a performance individual é uma das formas mais evoluídas do fetichismo dominante, criando um isolamento quase à vácuo entre o performante e os reais assorbentes do valor do trabalho. É um mundo dos sonhos para aqueles que buscam, no alheio, sua fonte do valor. É bem claro, portanto, que o fetiche, nesse caso, não apenas transforma os obstáculos em desafios, os problemas em oportunidades e as crises em criatividade, mas altera de forma diametral a relação dialética, fazendo do sujeito oprimido o próprio agente exploratório, enquanto este culpabiliza-se por nunca atingir seus objetivos ditos individuais. O auto-algoz não se dá conta, afinal, de que a liberdade que o direciona ao esgotamento é socialmente imposta de forma a maximizar a geração do valor, escondendo as reais conquistas do trabalho daqueles que sentem-se na ilusão de, finalmente, depois de séculos, ser donos do seu valor.

Seja empreendedor, um investidor em oportunidades de risco, trabalhe enquanto eles dormem, desperte a melhor versão de si. A overdose tóxica de positividade exaure a alma, desgasta o agir e deteriora o pensar. Crie metas, seja ambicioso, supere os recordes, performe e cresça. Cresça e faça crescer. Faça ficar maior, ainda maior, e sob seus ombros, mais pesado, cada vez mais pesado. E queira ser feliz. E busque ser feliz. Sempre feliz. Porque a tristeza, o ócio, a improdutividade são perdas. E ninguém quer perder. Nesse carrossel, pisoteia-se quem deixa de rodar para contemplar o seu entorno. É preciso se manter em movimento.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Cegueira


Criaturas obscuras circundam o lado de fora das janelas cerradas. O medo e a paranoia tornam abafado o lado de dentro. Uma visão, um simples relance tem o poder de tornar as pessoas ensandecidas, capazes das maiores atrocidades a si e aos mais queridos que estejam em seu caminho. Não se sabe a forma que essas criaturas têm, muito menos de onde vem o poder de adentrar na mente das pessoas e causar tal deterioração. Os mais crédulos não arriscam, os céticos duvidam da existência; entre a paranoia e o risco, os sobreviventes se fecham em suas campânulas escurecidas, sem contato com outros, sem visão do mundo externo. O medo se perpetua e vence.

No lado externo, cavaleiros de olhos vendados encaram o inimigo oculto. Os supostos cruzados de vendas nos olhos buscam combater os maiores males que já infligiram a sociedade humana. Sem direção, mas com um claro objetivo, os cruzados se armam contra o gigante que esperam encontrar, como Dom Quixote e seu épico combate contra os moinhos de vento. Do lado interno, surgem boatos e conspirações que alimentam cada vez mais o terror e o medo que impedem as pessoas de buscarem novos ares. A bolha negra e ofuscante encolhe-se e aperta, sufocando os vestígios de sanidade que qualquer um possa ousar em manter. Dentro dela, perpetua-se a ideia de que nada existe no exterior senão a morte e o apocalipse; nada é mais assustador do que aquilo que não se pode ver; nada se quer tanto evitar do que o próprio desconhecido.

Diz-se que a ficção e a vida compartilham de uma sutil conexão que, em momentos delicados, podem se confundir a ponto de tornarem-se indistinguíveis. Coberto pelo véu do obscurantismo, grandes aglomerados humanos são capazes de cegarem-se deliberadamente por medo do que não se compreende. Uma perigosa cegueira moral que é potencializada em comunidades de pessoas demograficamente separadas, buscando confirmar o seu viés lógico a todo custo, nem que isso demande de uma vida de privações e isolamento. São pelas janelas que a luz da realidade pode entrar, esclarecendo o ambiente e permitindo que se descubra regiões antes sob a penumbra. Janelas que permanecem fechadas com barreiras que evitem o contato com o diferente, com o novo, com o que pode causar um dano imensurável, mas que nunca foi visto pelos vivos e nunca pode ser descrito com precisão.

A coragem e a garra dos cruzados são admiradas pelos isolados da luz, passando a torná-los heróis capazes de um poder e influência jamais imaginados para tais pessoas. A conspiração ganha, a ilusão domina e todos passam a ser guiados por cegos em um mundo multicolorido. A luz capaz de direcionar e esclarecer se encontra totalmente coberta. Apenas as conversas com os iguais mantêm e alimentam a possível ilusão, sem nenhum deles de fato conhecer a criatura que os assombra.

Uma batalha se instaura: uma guerra pela liberdade, pelo fim do medo, da paranoia. Para tal, o trajeto é árduo e as águas são tortuosas. No entanto, deve-se ouvir, ouvir muito bem. E quando chegar a hora, no momento em que tudo que que deveria ser ouvido foi previamente escutado, deve-se abrir os olhos. Só assim é possível obter a direção correta.

Só abrindo os olhos que se pode enxergar as verdadeiras cores do mundo.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Como você lida com o fracasso?


Fracassei! Definitivamente não é algo agradável, ninguém gosta de fracassar. Vivemos todos os instantes traçando metas, planos e agindo em prol de um objetivo que ansiamos atingir, seja em nossa carreira profissional ou nos relacionamentos que construímos. Mas o fracasso acontece e não é incomum nos depararmos com uma situação irreversível que nos afastou das nossas realizações. O que fazer quando fracassamos? Na verdade um bom ponto de partida para essa discussão é “o que você faz quando fracassa?” Como você age quando seu namoro promissor tem um trágico desfecho? O que passa pela sua cabeça quando você é trocada por uma colega de trabalho em uma promoção importante? Como você reage ao saber que não atingiu a nota de corte do vestibular que sonhou durante todo seu ensino médio? Dentro da caixinha da rotina descendo a correnteza de emoções do cotidiano talvez não paramos para pensar sobre como encaramos o insucesso. Mas isso pode revelar grandes fragilidades pessoais que podem ser trabalhadas e fortalecida.

O jeito com que encaramos o fracasso é reflexo da forma com que lidamos com as situações que nos levam à falha. Em seus estudos sobre mentalidade e comportamento, a Prof. Dr. Carol Dweck propõem dois principais modos com que nosso cérebro interpreta os eventos que nos envolvemos, dois “mindsets”. Grosso modo (mais detalhes no livro da Prof. Dwerck), eles são divididos entre o mindset fixo e o mindset de crescimento. O mindset fixo parte do pressuposto que as características das pessoas (principalmente as suas próprias) são praticamente imutáveis. Somos o que somos, nossas características nos definem como tal e não há muito o que possamos fazer para mudar isso. Pessoas de mindset fixo tendem a crer muito mais em talento nato (artes, esportes etc), em habilidades sociais fixas (timidez, carisma etc) e que o esforço é sinal de fraqueza, visto que estou tendo dificuldades em concentrar minhas aptidões para realizar tal tarefa. Pessoas de mindset de crescimento, por outro lado, acreditam piamente na evolução cognitiva, que nossas características pessoais estão sempre em processo de crescimento e no desenvolvimento de suas habilidades. Quem tem essa mentalidade tende a valorizar o esforço acima dos resultados, encarar maiores desafios e rotular menos os colegas. Normalmente as pessoas mesclam os dois tipos de mindsets de acordo com as situações que enfrentam, mas saber qual é o seu dominante pode te ajudar a lidar com o fracasso de forma menos dolorosa. Você consegue identificar qual o seu?

Segundo os estudos da professora de Stanford, o fracasso é muito doloroso para aqueles com mentalidade fixa. Como para elas as características e habilidades de uma pessoa são imutáveis, falhar torna-se uma ofensa pessoal. Se fracassei, significa que não sou bom o suficiente, não disponho das habilidades necessárias para realizar tal tarefa ou desempenhar certa função. A reprovação em um exame importante é sinal de que eu não fui capaz de ser boa o suficiente, logo essa vaga talvez não seja para mim; o fim de um relacionamento significa que “nosso santo não bateu” ou ainda que ele não correspondeu às minhas expectativas; perder um concurso de poesia significa que eu não sou uma poeta exemplar e talvez deva desistir de escrever. No mindset fixo o fracasso corrói, tentamos nos isentar da culpa o máximo possível (normalmente afirmando com eloquência a culpa alheia), responsabilizamos os outros, nos envergonhamos e tentamos extirpá-la de nossos pensamentos. E pior, pouco fazemos para que não fracassemos novamente.

Uma possível solução para isso é tentarmos migrar nosso modo de ver o mundo para uma visão construtiva. No mindset de crescimento o fracasso é encarado como um processo de aprendizado. Como nossas características, nossos rótulos (inteligente, talentoso, gênio) não nos definem, o fracasso nunca é completo. A não obtenção do sucesso é uma oportunidade para aprendizado e aprimoramento das nossas habilidades. A queda em um vestibular concorrido pode ser um sinal que nosso método de estudo é ineficiente e que devemos mudar nossa forma de obter conhecimento, ou ainda uma oportunidade para revermos os nossos pontos fracos e aprimorá-los; um relacionamento que não corre bem pode ser considerado uma derrota, ou uma oportunidade de abertura de diálogo entre as partes para encontrar os motivos de atrito entre o casal. No mindset de crescimento, não somos: estamos!

Migrar de mindset, como estudos comprovam, é algo totalmente possível, mas não é simples. Exige, dentre muitos fatores, um exercício de humildade e auto aceitação. As consequências para autoestima e convívio em sociedade, no entanto, podem ser exorbitantes. No mindset fixo, o fracasso nos torna um fracassado; no mindset de crescimento, o fracasso nos motiva, sem rotular, delegar culpa e derramar lágrimas em vão, lamentando. Como lidamos com o fracasso é parte importante da nossa personalidade e pode definir como agimos em situações de tensão (basta notar que isso é sempre alvo de questionamentos em entrevistas de emprego).

Fracassei! Mas o que aprendi com isso? Porque fracassei? Como posso agir para não falhar mais da mesma forma? Quais são os próximos passos? Perguntas como essa servem para exercitar nosso cérebro e expungir o autojulgamento que pode ter sérios impactos negativos em nossa vida.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Admirável Mundo Novo: ser feliz ou ser livre?


Imagine um mundo no qual amamos tudo o que fazemos. Todas as tarefas são extremamente prazerosas, desde o nosso emprego, lazer, relacionamentos interpessoais e a própria imagem no espelho. Um universo no qual vivêssemos em um estado de êxtase permanente, sem neurastenias, sem dissabores. Você mudaria algo em sua vida? Agora suponha que tudo isso seja fruto de uma estrutura social que não permite a mudança, que desde a nossa concepção sejamos condicionados a fazermos e gostarmos de apenas um tipo específico de rotina. Não há a possibilidade de variações que tragam felicidade simplesmente pela forma com que nosso cérebro e nosso corpo foram programados para reagir às incumbências cotidianas. A sua resposta para a primeira pergunta continua sendo a mesma?

É essa a sociedade distópica que Aldous Huxley desenvolve em seu romance mais popular, Admirável Mundo Novo, de 1932. Mesmo sendo escrita nas primeiras décadas do século passado, a obra-prima de Huxley aborda temas incrivelmente modernos e levanta discussões sobre liberdade, felicidade, autoritarismo, uso de drogas e ciência que ainda são relevantes nos dias atuais (mais do que no século passado, pois as tecnologias consideradas utópicas para a época estão se tornando cada vez mais realidade). Dentre as diversas discussões abordadas na trama, um destaque especial vai para a forma com que o autor trata a relação entre liberdades individuais e felicidade coletiva. O Mundo Novo de Huxley apresenta um estado forte, regulador de todas as esferas das vidas pessoais, que mantêm a estabilidade de uma sociedade dividida em Castas. Cada uma das Castas tem um papel a desempenhar na máquina social, alguns destinados a serem operários em fábricas e realizar serviços braçais, outros de serem administradores mundiais, com necessidade de alto grau de erudição. Os nascituros, portanto, são modelados conforme o futuro que os aguarda: operários ganham mais força muscular e têm removida a capacidade de ler e escrever, por exemplo, via engenharia genética e condicionamento dos recém-nascidos. Isso cria uma sociedade como a descrita no início desse texto: humanos sob uma felicidade plena, porém sem liberdades individuais de escolha. Esse é o gancho do autor para a discussão sobre ser livre e também estar sujeito ao sofrimento, à infelicidade. Afinal, a liberdade conduz ao desprazer?

O filósofo francês Sartre dialoga com esse dilema destacando que muitos indivíduos preferem a privação das suas liberdades individuais ao sofrimento de angústia causado pela escolha, devido à necessidade de tomar decisões que podem ser de grande relevância para o seu bem-estar presente e futuro. Segundo a narrativa de Huxley, essa transição entre o mundo industrial da década de 30 para o Admirável Mundo Novo descrito na obra se dá em um momento de medo e desilusão, no qual as “pessoas estavam dispostas a deixar controlar até os seus apetites, em troca de uma vida sossegada”. Regimes totalitários podem ser vetores de felicidade para aqueles que encaixam-se nos moldes sociais impostos. A limitação da democracia, da liberdade de opinião, permite uma aceitação passiva da realidade sem o incômodo da responsabilidade compartilhada entre povo e seus governantes. Em uma sociedade eugênica como na distopia de Huxley, na qual todos os indivíduo de uma Casta são igualmente condicionados (diversas vezes gêmeos geneticamente idênticos), a privação da liberdade e da expansão criativa pode significar um isolamento da infelicidade.

Regimes autoritários, moralmente regrados, não apenas políticos, mas também presentes em seitas e grupos religiosos, podem ser muito atrativos para aqueles que se identificam com seus preceitos, devido à proteção que oferecem contra os que destoam do seu modelo ideal de vida. Isso é um dos motivos que reúnem multidões de apoiadores. No entanto, imposições de hábitos e personalidade podem ser extremamente nocivos à criatividade, arte, expressões culturais em geral e, acima de tudo, geram preconceito e exclusão em uma sociedade heterogênea. Em uma visão humanista, essa troca apresenta múltiplos nós que não são atados. Na obra do inglês, esse embate é discutido quando um Selvagem (um ser humano próximo a realidade atual) amante de Shakespeare confronta-se com o novo estilo de vida da raça humana. O choque é intenso e o debate se acalora: qual preço você estaria disposto a pagar pela felicidade plena?

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A discussão acima foi um pequeno recorte do que é levantado por Aldous Huxley em sua obra. A leitura completa de Admirável Mundo Novo é muito mais rica e, das principais distopias do século XX, uma das mais fluidas de ler e compreender.

Sugiro também a leitura das opiniões posteriores de Huxley sobre a sua obra, principalmente aquelas pós-Segunda Guerra Mundial, na qual ele contextualiza os autoritarismos na época com sua sociedade distópica.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Pelos olhos de uma criança


Do alto da janela de sua mansão, Bruno olhava sem entender o que acontecia do lado de fora. Uma grande cerca o separava de centenas de pessoas, que curiosamente usavam os mesmos pijamas e chapéus listrados. Não era justo, pensava o menino alemão, que ele tinha que ficar sozinho naquela casa, cercado por muitos adultos chatos e estressados enquanto a poucos metros de distância existiam muitas e muitas crianças com quem ele poderia brincar, aproveitar a tarde e jogar futebol. Em outro universo vivia Gui, um menino de classe média brasileiro que recebe a notícia de que sua irmã mais velha sofreu um acidente de carro, tornando-a paraplégica. Lembrando de quando pegou uma bronquite, ficando semanas na cama assim como a irmã, esperava ansiosamente o dia em que ela se curasse e voltasse a andar, podendo brincar com ele novamente. Não entendia, porém, o porque dos adultos evadirem o assunto abruptamente toda vez que ele demonstrava suas esperanças. Esses dois acontecimentos remetem-se a duas ótimas obras de literatura juvenil, O menino do pijama listrado, de John Boyne e Estrelas tortas do brasileiro Walcyr Carrasco. Para os adultos, no entanto, essas obras contam mais do que uma história pelos olhos de uma criança, descrevem, além de muitos outros aspectos, como o filtro do preconceito funciona, como estamos fadados a enxergar o mundo através dele e como ele se constrói ao longo do tempo.

Bruno tinha oito anos, a irmã mais velha, doze. Um dia, entediado e solitário, o alemão busca a irmã querendo respostas. "Eles são judeus, Bruno", responde a irmã, "Nós não gostamos deles". "E nós somos judeus?", o garoto replica, sendo prontamente interrompido pela menina "Não! Não diga isso". "Mas se não somos judeus, o que somos?", novamente questionando sobre as pessoas de pijama listrado isoladas pela cerca. Para essa pergunta, no entanto, a menina não soube o que dizer. Ficamos afônicos quando paramos para pensar no real motivo por agimos de forma estranha com pessoas que nem conhecemos ou acabamos de conhecer. O filtro do preconceito age sem nos darmos conta de sua existência e é esse um dos principais motivos de pessoas preconceituosas não se identificarem como tais. Essa falta de percepção, que Bruno ainda não possuia, está atrelada a dois fenômenos sociais muito similares, que são a estereotipação (normalmente a origem do preconceito em grupos humanos) e a conformidade social (o que o mantém vivo e blindado). O jovem alemão, em sua visão infantil está além dos estereótipos, não entende o que há de diferente entre ele e seu amigo, Shmuel, isolado do outro lado do campo de concentração. Não se conforma com essa segregação, pois não vê sentido no que os adultos fazem, impedindo-os de brincar e se divertirem juntos. A situação é inocente; a mensagem é forte e poderosa. Em que se baseia o preconceito?

Yuval Harari, em seu livro Sapiens, introduz um debate pertinente de como a rotulação e classificação segregadora dos seres e objetos no ambiente em que vivemos desde os primórdios foram necessários para a manutenção do gênero humano no planeta. Em outras palavras a classificação de algo como "Estranho/mantenha a distância" e "Comum/se aproxime" é o modo mais simples que o cérebro dos Sapiens tem em garantir sua autoconservação. Por esse modo, não é exagero dizer que o medo e o preconceito são como dois lados da mesma moeda, provenientes de um mecanismo cognitivo comum. Apesar disso, destaca o autor israelita, os Sapiens conquistaram o mundo por sua adaptação à vida coletiva e capacidade única de unir grandes povos, de acordo com as condições em que viviam em cada época. Um questionamento importante pode ser colocado nesse contexto: o preconceito ainda é um mecanismo necessário para manutenção da nossa vida em sociedade?

Como vencer o preconceito, já que ele ainda é vivo e latente em nosso cotidiano? Gui, um dos narradores do livro Estrelas tortas, nos dá, na simplicidade da visão infantil, um caminho a seguir. Ao voltar para a escola em uma cadeira de rodas, sua irmã Marcella, antes uma das atletas mais queridas entre os estudantes, sofre rejeição instantânea por seus colegas adolescentes. O garoto, por outro lado, não compreende com clareza a reação dos amigos. A irmã mais velha estava doente, deprimida, mas continuava com a mesma personalidade de antes, porque as coisas estavam tão diferentes? O que Gui sentia pela irmã talvez seja a chave para rasgarmos os filtros estereotipadores que se formam ao nosso redor: empatia. A dificuldade (ou o desconforto) de colocar-se na pele alheia, de vestir os óculos dos outros, principalmente dos estranhos, pode ser doloroso, então evitamos a todo custo carregar esse fardo.

Assim como crianças que vão ao parquinho da praça para brincar e se divertir com todos, independentemente das aparências, da classe social ou do gênero, pode uma vida sem preconceitos ser mais leve, divertida e prazerosa. Basta um certo esforço cognitivo, que no começo pode parecer exaustivo, e desassociarmos o medo às aparências. Os livros de Carrasco e Boyne apresentam diversos debates importantes além do recorte aqui destacado, utilizando a narrativa infantil como um ponto de vista distinto, permitindo ver o óbvio muitas vezes entocado em um ponto invisível nas situações do dia a dia. Leituras simples e fluidas, mas que pesam a consciência dos adultos e nos convidam para um interessante experimento de empatia.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A pós-moderna arte da guerra


Há cerca de sessenta mil anos, coabitavam o planeta duas populosas espécies humanas. Os europeus Neandertais disputavam recursos e território com os Sapiens, cuja expansão territorial já era expressiva e que não tardaria a conquistar os quatro cantos do planeta. Muitas são as teorias sobre o que teria causado a extinção dos Neandertais, desde uma erupção vulcânica que assolou o velho continente no período superior do pleistoceno até a falta de capacidade de adaptação às mudanças no ambiente em que habitavam, principalmente na península ibérica. Porém um aspecto interessante dos últimos séculos dessa raça humana foi a difícil convivência com seus irmãos Sapiens. Violentos, agressivos e inteligentes, nossa raça oprimiu e intimidou de forma unipolar os Neandertais, a ponto de sermos apontados como peça chave da extinção, não apenas destes, mas de inúmeras outras espécies com as quais convivemos ao longo da jornada rumo ao monopólio. Os Sapiens eram implacáveis nas batalhas, impiedosos nas vitórias e dominadores de recursos e territórios.

Parece estranho pensar nos homens pré-sedentários como similares a nós. Aprendemos a cultivar o solo, procriar animais, modelar o espaço em que vivemos. Levantamos cidades, fábricas; criamos códigos de conduta e mitologias diversas. Somos um povo diferente, exceto por um detalhe extremamente importante: dentro de nós, de cada núcleo de cada célula dos nossos tecidos dos nossos órgãos, somos praticamente idênticos aos velhos coletores e caçadores de outrora. Nosso DNA, a fórmula mágica do sucesso da nossa espécie, mantêm-se praticamente intocável ao longo dos milhares de anos que nos separam dos nossos antepassados paleolíticos. Em essência continuamos os mesmos. Os mesmos implacáveis, impiedosos e dominadores que fomos com os Neandertais. Mas agora nossas batalhas são outras.

Por volta de 500aC, nos meados da China feudal, Sun Tzu relatava suas estratégias de batalha em um best-seller mundial, A Arte da Guerra. Os escritos do general deveriam ser lidos de forma literal, como um guia de como se posicionar em combate, como contra-atacar e planejar seus cercos durante um período de guerras. O fato do manual chinês continuar sendo transcrito, traduzido e recomendado reforça ainda mais uma das ideias mais lugar-comum nos dias atuais: a vida moderna é uma eterna batalha. Os inimigos, nesse caso, são as demais peças do sistema que dita a nova modernidade (ou pós-modernidade, se couber a definição), os outros. Os outros são os colegas de trabalho, as grandes empresas de marketing, o gerente da seu escritório, os bancos, os governos, os vizinhos, os familiares. Todos os que podem interferir em seus planos de vida, te puxar para baixo, te dizer que não. Em outras palavras, a batalha da modernidade é do meu eu contra quem não me dá apoio.

O individualismo e o senso de independência social plantado, regado e resguardado pelo status-quo do capitalismo fluido é a base da ideia de que todos podemos qualquer coisa, desde que sejamos competentes o suficiente para vencer nossos próprios obstáculos, nem que isso custe o bem estar dos outros. Como Sun Tzu dizia, o objetivo principal da guerra é a paz, ninguém quer batalhar para sempre, mas todos queremos a vitória. A paz de uns (como as mulheres curdas nos ensinam bem) pode representar a desgraça de muitos. Mas os outros são os outros. Como o general já salientava, é necessário conhecê-los, visando explorar seus pontos vulneráveis, mas jamais expor os seus de forma demasiada. Os outros são aqueles que queremos trabalhando para nós, que queremos comprando nossos produtos, que dizemos que nos importamos, mas que devem ficar do outro lado do muro. Batalhas não são consensuais, guerras não são democráticas. Ou são um massacre do mais fraco ou um massacre generalizado. Sempre há muitas baixas.

Contra os Neandertais, a luta era espécie contra espécie; a luta já foi tribo contra tribo, reino contra reino, empresa contra empresa, família contra família. A fragmentação do coletivismo e o fortalecimento da identidade individual incorpora-se com o predadorismo da meritocracia desigual e torna o viver na nova modernidade um desfio de sobrevivência. O que o general chinês descrevia como campo de guerra, que deveria ser reconhecido e desbravado antes dos confrontos, hoje pode ser abstraído aos escritórios, estações de ônibus e redes sociais. O que outrora significava batalhar por territórios, hoje resume-se a buscar relevância; recursos pilhados equivalem-se aos likes. O que era um confronto de exércitos, hoje um confronto de indivíduos. Sempre lutamos por poder. O quanto isso se difere dos nossos antepassados?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O justo e a justiça

 

O convívio em sociedade baseia-se em acordos interpessoais entre todos os indivíduos que a compõe. Sejam explicitamente concordados ou introjetados pela moral na qual estão imersos, conjuntos de regras, valores e punições são os pilares de agrupamentos humanos desde o princípio. Quando os sans-culottes se rebelaram contra a monarquia parisiense, contestavam-se os abusos de autoridade da nobreza e seu caráter de dominadora absoluta de seus súditos. O acordo em vigor até então representado pelo poder pleno dos descendentes do Rei Sol perdia espaço para a democracia livre, igualitária e fraterna dos revolucionários. A sociedade estava em transformação, portanto os grandes acordos intersubjetivos que a mantinha unida também sofria a metamorfose.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão serviu como farol guia das grandes constituições republicanas contemporâneas, a base dos Estados de Direito ocidentais. Assim como o código de Hamurabi na antiga Babilônia, grandes convenções de normas regem os países do mundo moderno, determinando os direitos e obrigações de suas populações assim como as punições legais para os que desviam suas condutas. Olho por olho, homicídio por reclusão. Foram os grandes processos revolucionários que substituíram o primeiro afronte pelo segundo.

No entanto, as pessoas constantemente esquecem que o sábado foi feito a elas e não o oposto. A lei garante a justiça até o ponto que ninguém é injustiçada por ela. Em outras palavras o limite do estado de direito é a soberania popular e subjugar a segunda em prol da primeira é como a luar miar para cada gato: uma inversão de valores que não faz sentido. A democracia, em uma interpretação contextual, é o regime que permite ao povo modificar as próprias regras que o rege, garantindo assim não apenas os direitos da maioria, mas promovendo a indiferença entre os cidadãos, ao ponto que nenhuma característica intrínseca ao indivíduo (cor da pele, opção religiosa etc.) pese em situações de julgamento legal.

Assim como o rei Babilônico defenderia suas regras como a única capaz de manter a ordem social, o mesmo acreditavam os reis franceses e os grandes positivistas modernos. Ao remover o zoom da lente da história nota-se algo muito curioso: desde a revolução cognitiva, passando pela agrícola, industrial, capitalista foi sempre a falta de ordem que nos trouxe algum progresso. Quando o povo clama por justiça e a soberania popular prospera, as grandes mudanças sociais insurgem. Um dos grandes questionamentos do nosso tempo remete-se novamente aos princípios da república platônica: nossa organização política realmente garante essa soberania?

sábado, 7 de janeiro de 2017

Um brilho que a todos pertence


Romper preconceitos é uma tarefa que demanda um grande esforço cognitivo. Isso se deve ao fato de termos, de maneira deliberada, que livrar-nos de uma primeira impressão construída de forma associativa por nosso inconsciente. Nossa visão do mundo é moldada, a princípio, por uma série de conexões e padrões que temos em nosso cérebro. Talvez isso seja o grande motivo de sucesso da raça humana: não precisamos de instintos naturais que nos guiem por toda a vida; nós construímos um próprio modelo do mundo que nos cerca, e tentamos encaixar as informações externas que recebemos a ele. E esse modelo se atualiza com o decorrer da nossa existência. Mesmo sendo fundamental para os seres humanos, esse sistema pode nos causar impressões incorretas do que está ao nosso redor, em alguns casos. Daí surgem os preconceitos; por isso ele demanda mais do nosso cérebro para ser desconstruído.

Estamos cada vez mais individualistas e solitários, um fruto da modernidade líquida em que imergimos. Isso faz com que interpretações pessoais do mundo ganhem força, em detrimento das coletivas. Basta nos unirmos com pessoas que pensam como nós em diversos pontos, com poucas divergências que favoreceriam algum tipo de debate, um enclausuramento social. Voilà! Temos o contexto menos ideal para eliminarmos os preconceitos, e o habitat perfeito para que eles se fortaleçam.

Rowling nos instiga a esse debate no seu romance Morte Súbita. A autora best-seller constrói, no pequeno e tradicional vilarejo de Pagford, uma trama costurada ao redor da personalidade de cada um que compõe a história. JK cria uma bolha: dentro dela os moradores mais antigos da vila lutam contra o crescimento de um bairro de periferia em suas fronteiras. O enredo é pleno de análises comportamentais, tratando desde problemas familiares até polarização política. Mas a grande lição que se tira é, nas palavras da própria autora, a dificuldade de "enxergar o brilho de Deus em todas as pessoas". O bloqueio de olhar através de um filtro que nos cerca e nos colocarmos no lugar dos outros, para assim entendermos como parte da sociedade chega nas situações mais marginais da vida humana.

No desenrolar dos acontecimentos, entramos em contato com um universo cheio de preconceitos e inflexões, regido por um reacionarismo cego, que acaba afetando negativamente a vida de todos que o compõe. Uma cegueira muito comum além da ficção das páginas de Rowling. Uma cegueira que elimina a humanidade daqueles que comentem atrocidades. Afinal, não nascemos pré-programados para matar, para roubar. Viemos todos ao mundo com o mesmo brilho. O que nos faz apagar?

A mensagem passada pela autora não é única, muito menos original. Mas é difícil de ser entendida: exige compaixão, caridade e ternura. Obviamente, muito mais árdua de ser colocada em prática. Romper preconceitos doí, estar errado doí, sair do conforto da bolha doí muito. Estamos prontos para suportar essa dor pelos outros?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os muros da sanidade


Era na Casa Verde que o Dr. Bacamarte mantinha os loucos. O sanatório de Itaguaí descrito no conto machadiano era a bancada de estudos do alienista. Nele, o médico internava quem achasse que possuía algum transtorno da normalidade, sejam psíquicos ou comportamentais. Baseado em uma lógica pouco científica, Bacamarte passou a hospitalizar todos aqueles que apresentavam qualquer discrepância do seu padrão de normal. Em certo ponto, atingiu mais de metade dos moradores da cidade fluminense. Eram os muros da Casa Verde que separavam os loucos dos não-loucos. Nas palavras de Foucault, cumpria o papel de um hospício, o de informar a todos o único lugar onde vivem os anormais.

Afinal, o que é ser louco? Para alguns, passar a noite na casa de um estranho que conheceu na balada é loucura; para outros, pegar um empréstimo para viajar com a família, mesmo sem saber se terá condições de pagar é loucura; para muitos, apaixonar-se é a maior das loucuras. Ao ser internada no sanatório de Villete após tentar se matar, Veronika se vê em um ambiente incomum. Lá, doentes mentais que precisam de acompanhamento se misturam com pessoas de mente sadia, mas que temem o mundo externo. O conforto que encontram dentro das paredes do hospital psiquiátrico é devido a liberdade da hipocrisia. Lá podem ser quem querem ser. Não precisam seguir padrões, não precisam fingir gostar ou não de alguém, não precisam omitir os sentimentos. Em Villete todos eram loucos, simplesmente por não precisarem forçar a ser o que os outros chamam de normal, mas que adoece a todos.

Paulo Coelho engenhosamente chamou essa praga de Amargura. A amargura que atinge aqueles adultos que reprimiram seus sonhos na juventude para seguir uma vida mundana comum e confortável, mas que olham os jovens lutando pelos seus desejos e os julgam desvirtuados. Aquela amargura do infeliz casal normal que olha com desprezo a enxurrada de felicidade de um casal gay anormal. A mesma amargura que vive naqueles que invejam a mulher que dorme com vários homens em uma única noite, mas que são limitados por suas religiões a fazerem o mesmo. Veronika, também afetada por esta doença, descobre neste ambiente sem barreiras a sua única cura: o amor pela vida e a vontade de viver intensamente cada dia, livre das amarras do socialmente correto e do filtro de hipocrisia que antes julgava suas ações.

Bacamarte conclui, após suas experiências fracassadas, que, de perto, todos são loucos. Para as freiras, são loucas as prostitutas e vice-versa. Nada além de mim pode ser considerado normal e, como comprova o alienista, eu sou desequilibrado aos olhos dos que me cercam. Veronika e Bacamarte descobrem suas próprias loucuras; para ela, significou sua liberdade; para ele, seu cárcere; para ambos, uma revelação de um novo mundo.

Sob o véu da loucura, oculta-se o regozijo. Quem são os loucos de fato? Aqueles que se libertam para a felicidade ou aqueles que a limitam, com medo do julgamento alheio? 

domingo, 6 de março de 2016

Elos imaginários


Em uma época em que nossas supostas ideologias tendem a ser tão variadas em um mesmo grupo social, as pessoas se esquecem de valores humanos que são (ou deveriam ser) universais. O direito à vida e à liberdade transcende qualquer posicionamento político, social e religioso. Pelo menos deveria ser assim. O que se nota, no entanto, é uma inversão desses conceitos básicos ao atribuir conexões inexistentes entre alguns direitos fundamentais e vertentes políticas específicas. Isso acontece, em grande parte, relacionando o que é incômodo aos opositores e o confortável, aos aliados.

Ao negligenciar a existência de assuntos importantes e complexos que devem ser amplamente debatidos, como racismo e homofobia, simplesmente por preferir liberalismo econômico do que um estatismo intenso é a mais pura ignorância para se manter na zona de conforto. Ou, talvez, uma descarada falta de ética. Basta pensar um pouco para perceber que posicionamento econômico, como no exemplo acima, não apresenta relação alguma com garantia dos direitos humanos. Mas continuamos a insistir nesse tipo de conexão ilusória, efeito direto de reversões cognitivas.

Fácil de notar, difícil de desconstruir. Ao inverter-se os valores, surgem baboseiras como racismo reverso, cristofobia, heterofobia entre outras que não valem palavras. Inverter o opressor com o oprimido é uma ótima estratégia de vitimismo: sou sofredor de uma repressão que é causada por aqueles que eu massacro. Minhas cabeças de gado estão fugindo sem controle e destruindo meu lindo abatedouro.

Negar a opressão é oprimir ainda mais. Não é apenas ignorância, é falta de caráter e compaixão.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Os erros de nossa intuição


Um dia desses, meu pai estava lendo seu jornal diário e analisava uma reportagem sobre o ativismo LGBT e sua influência atual na política do país. Estava claramente intrigado com o que estava lendo, seja lá o que passasse em sua mente. A matéria continha ilustrações, imagens do grande evento da comunidade na Avenida Paulista, a vulgarmente conhecida "Parada Gay". A foto panorâmica apresentava a avenida lotada, com bandeiras, faixas e muitas cores. Era possível ver pessoas até onde a lente da câmera nos permita. Encarando friamente a fotografia, ele, na maior sinceridade e espontaneidade que um homem nos seus 50 anos poderia ter, me fez uma pergunta curiosa. "Porque será que existem tantos gays hoje em dia?". A pergunta foi claramente retórica. Respondi com um sorriso, e continuei minhas atividades. Como ele não esperava resposta, manteve o seu calmo ritmo de leitura do jornal, esquecendo a indagação após alguns segundos. Eu, por outro lado, não esqueci.

O questionamento do meu pai foi realmente poderoso, carregado de informações que podem ser tiradas se olhado de maneira aprofundada. A retoricidade da pergunta deixa claro que, alguns décimos de segundos atrás, outra pergunta surgiu em sua mente: "Existem mais gays hoje do que no passado?". Claramente seu cérebro respondeu com um sonoro sim. Mas se realmente pararmos e olharmos a pergunta, notamos que ela é extremamente difícil de ser respondida de forma rápida. Quantos LGBTs existiam no passado? Quantos realmente de assumiam publicamente? Quais os indícios que o número de gays é maior agora? Dados? Quais dados? De fontes confiáveis? Todas essas perguntas podem ser solucionadas, mas demandariam um esforço muito maior do que meu pai empregou ao analisar rapidamente a situação. O que ele fez, no entanto, é algo que acontece a todo momento em nossa vida e não nos damos conta disso.

Responder a uma pergunta do tipo "Eu recebo mais informações sobre o ativismo LGBT do que antigamente?" é uma tarefa muito mais simples do que a pergunta original. O cérebro do meu pai (que é um homem com muita experiência de vida e conhecimento agregado, longe de ser ignorante) inconscientemente substituiu a pergunta original por algo mais simples, como a mostrada acima, dando a falsa impressão que elas eram equivalentes. Esse processo de troca descrito é conhecido por especialistas como Heurística da Substituição. Achamos que estamos respondendo a pergunta original, quando na verdade estamos resolvendo uma muito mais simples, mas que nossa intuição não consegue diferenciar da original. Apenas conscientemente percebemos que a tarefa inicial pode ser muito mais trabalhosa e profunda do que imaginávamos.

Em alguns casos (na maioria deles), a substituição nos poupa esforço cognitivo e nos permite fazer análises mais práticas de situações cotidianas. Contudo, quando tratamos de assuntos mais sérios, a heurística pode ser a fonte de vários erros e nos levar a conclusões completamente equivocadas sobre diversos assuntos. Eu mesmo me confrontei com a seguinte situação, ao ler comentários de notícias no Facebook: "Estamos nos tornando mais intolerantes?". Prontamente respondi que sim, estamos ficando cada vez menos dispostos a aceitar o diferente, baseado nos discursos de ódio que exalavam das publicações da rede social. Esqueci, por um minuto, das barbaridades da Idade Média contra os hereges, da exclusão social feminina na revolução industrial ou mesmo das brutais repressões de opiniões da ditadura em nosso país. Não passou pela minha mente que minha avó era julgada e proibida de sair de calça na rua ou que meu avó jamais seria respeitado se o vissem chorando em público. Fui enganado pela minha mente, sem me dar conta, porque decidi responder a uma pergunta do tipo "Estou mais exposto a opiniões intolerantes?". Mais simples, mais intuitiva, porém diferente da original e com a resposta inversa.

Tiramos conclusões precipitadas o tempo todo, seja lendo uma matéria do jornal, vendo um anúncio publicitário ou conversando com um estranho. Nossa intuição é rápida, prática e trabalha sem esforço. Nosso consciente é lento, demanda atenção, mas é muito mais preciso, porque é o único capaz de aplicar nossos conhecimentos de maneira lógica para chegar a uma conclusão. Quanto mais percebemos isso, melhor é nossa tomada de decisão e menos somos enganados por nosso cérebro.

O primeiro passo para entendermos o mundo é entendermos nós mesmos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

As duas lâminas da mesma espada



Minha mãe costumava dizer que a curiosidade matou o gato. Na minha inocência de criança, ficava apavorado: coitado do gatinho, onde ele foi se meter para merecer isso? Foi atropelado por um carro por querer saber o que havia do lado oposto da rua? Ou talvez se engasgou com um osso de galinha tentando bisbilhotar no lixo? Será que o mesmo aconteceria comigo se eu tentasse pegar um pouco de brigadeiro da panela que minha mãe ainda não tinha retirado do fogo? A causa, nunca soube ao certo, mas o mistério era o que tornava a frase tão arrepiante: o bichano pagou coma própria vida, seu mais precioso bem, o preço de meter o nariz onde não foi chamado.

É interessante que, na virgindade da alma de uma criança, reza a mais pura humanidade. Somos curiosos por natureza, inclusive nos menores e mais singelos detalhes do nosso cotidiano, como abrir uma revista de fofocas, ou até mesmo querer saber como estará o tempo no próximo final de semana, para tomarmos a decisão certa de viajar ou não para a casa de praia. A necessidade de compreender o mundo ao nosso redor caminha conosco junto com o caminhar das civilizações, desde o berço da sociedade. Buscar entender o nosso meio é o modo que o ser humano encontrou de entender a si próprio.

O diferente, o novo, o incerto foram os pontos de partida para a criação de mitologias, religiões dos mais diversos povos, de todos os cantos do planeta Terra. Tentar explicar os raios nas tempestades, a causa de doenças e pragas, ou qualquer mistério que foge do nosso controle inspirou (e ainda inspira) as maiores histórias produzidas durante nossa existência. É o cerne da natureza humana: o que está fora de nossas mãos avançou além da nossa zona de conforto e somos fadados a sempre querermos retornar à ela. Sim, exatamente, o misterioso é desconfortável. O misterioso nos instiga, nos faz questionar. Afinal, o que há no topo daquele monte na Grécia? O que há de tão mágico no fruto daquela árvore que nos foi proibido de comer?

É a habilidade de questionar, única entre os seres do planeta, que consiste no núcleo de nossa humanidade. A ciência nasce da nossa sede por explicações, por buscarmos essa compreensão, porém de maneira sistemática, experimental com base em repetições e observações, invariante de pessoa para pessoa, criando verdades universais. O mais curioso de tudo, no entanto, é percebermos que o ponto de partida de uma pesquisa científica é uma hipótese. Em outras palavres, é a partir de uma ideia que queremos testar que começa todo o trabalho de um pesquisador. Algo muitas vezes abstrato. A ciência e a ficção, que frequentemente são colocadas em faces opostas de uma moeda são, em essência, a mesma coisa. Enquanto as histórias nos dão a liberdade para transcendermos os limites do mundo que conhecemos, a ciência nos mantêm firmes ao chão, onde acontece a vida real. Ambas se complementam, suprindo a carência que temos por desvendar o misterioso: nossa curiosidade. Limitar-se a uma delas em detrimento da outra é limitar a capacidade humana. E algo que não conhecemos são nossos limites, principalmente os limites dos nossos sonhos!

Foi com a cabeça nas nuvens que superei a morte do gatinho, imaginando que, onde ele estivesse, estaria brincando com seus amigos, feliz e se divertindo, enrolado em novelos de lã fofinhos e coloridos. Mas foi com base em um experimento científico que eu descobri que o brigadeiro pode ser muito mais prazeroso quando esperamos ele esfriar um pouco entes de comer. Se hoje conseguimos acender uma lâmpada foi porque, em algum momento no passado, a mesma lâmpada se acendeu na imaginação de um grande cientista.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nossos Desvios



Uma pesquisa de opinião é algo extremamente complicado de se fazer. É fácil, na verdade, se não estivermos interessados em um resultado consistente, como apenas confirmar uma ideia vaga, sem interesse em saber quem pensa diferente. Fazer uma pesquisa que ilustre a realidade de um grupo grande de pessoas (sem gastar muito tempo e dinheiro perguntando a cada membro) não é uma tarefa trivial. Uma das maiores dificuldades é a necessidade de escolher (quase que à dedo) um pequeno grupo de pessoas que equivale, em menor escala, ao perfil do universo que estamos interessados em desbravar. Fazer essa amostragem exige técnica e experiência, caso contrário o resultado poderá ser facilmente alterado. Essa alteração é chamada pelos estatísticos de viés, ou desvio.

Vieses são problemas corriqueiros em análise de dados. Quando se espera um certo padrão na distribuição de informações e algo completamente inusitado acontece, normalmente a amostra está sofrendo de algum desvio do gênero. Um exemplo clássico é medirmos a preferência eleitoral daquele ano em um protesto violento contra o governo. Ou, talvez, perguntarmos para quem foi demitido de uma empresa se gostaram de trabalhar no local. Ou ainda para um grupo de corintianos fanáticos se eles estão torcendo para o rival Palmeiras ganhar aquele campeonato que foram precocemente eliminados. Generalizar essas respostas como a opinião de uma população maior e mais complexa, com múltiplos pontos de vista, é um erro grosseiro. E, adivinhem, isso não acontece apenas com estatísticos.

Todos nós analisamos o mundo ao nosso redor, seja propositalmente ou devido ao trabalho magnífico do nosso inconsciente. Absorvemos milhares de informações diferentes por dia e cada uma delas recebe um tratamento específico pelo nosso cérebro. Basicamente, as submetemos a um filtro natural: o senso crítico. E é nesse ponto que a situação fica complicada. Nossa habilidade de interpretar novas informações é muito subjetiva, dependente muito da nossa cultura e do meio em que vivemos. O que ocorre é um fato muito curioso: muitas vezes achamos que estamos utilizando apenas a lógica ao confrontar situações e fazer a melhor decisão, mas estamos sendo enganados pela nossa própria mente. Involuntariamente, emoções, estímulos ou mesmo hábitos e manias interferem no nosso modo de pensar, desviando a construção do raciocínio e nos fazendo chegar a conclusões erradas. Esses efeitos são denominados Vieses Cognitivos.

Quando uma modelo de passarela está cercada por jogadores de um clube de basquete, tendemos a considerá-la baixinha, mesmo tendo quase dois metros de altura. O mesmo vale para homem de um metro e sessenta que se sente alto cercado de crianças. Essa diferença de opiniões por comparação com o meio ao redor é chamada de Viés de Contraste, agente causador de sentimentos como inveja, ciúmes e, como dizia uma grande pensadora contemporânea, o recalque. Em momentos que notamos mais os defeitos nos outros do que em nós mesmos, inclusive quando agimos da mesma forma (ou pior), estamos sob efeito do Viés do Ponto-cego. Situações em que buscamos de qualquer forma explicar o motivo daquela marca de torradeira cheia de problemas ser melhor do que as demais, apenas por ser a sua preferência pessoal, estamos sofrendo do Viés da Confirmação.

Assim como para os estatísticos uma amostra viesada deve receber um tratamento especial, como ser refeita por exemplo, vieses cognitivos podem ser solucionados com um pensamento menos superficial sobre os assuntos abordados. Ao entrar em um processo de aprendizado, devemos estar dispostos a quebrar paradigmas, sair da nossa zona de conforto e confrontar pontos de vista distintos, vindos de fontes diversas. Quanto maior a amostra e mais variada ela for, menor é a chance de ser tendenciosa e mais precisos serão os resultados. Devemos romper com nosso Viés da Congruência, que nos impossibilita de testar hipóteses alternativas, buscar conhecimento e chegar a uma conclusão mais precisa e consistente.

Queremos todos uma mudança para um mundo melhor. Estamos prontos para mudarmos nossa própria mente?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Quem sou eu?


Afinal, o que nós seres humanos temos que nos torna tão diferentes das demais criaturas existentes em nosso planeta? Seria a nossa capacidade de aprendizado, baseado em observações? Ou por sermos a única espécie que destrói o meio ambiente em que vive? Ou ainda por sabermos manipular uma torradeira como nunca visto em nenhum outro lugar na Terra?

Pesquisadores na Universidade de Stanford uma vez treinaram uma gorila chamada Koko para se comunicar com linguagem de sinais. Koko sabia fazer de tudo: pedir comida, água, informar dores, expressar sentimentos e até mesmo ter gatinhos de estimação. Mas um fato intrigou os cientistas, algo estranho sob olhos humanos: a gorila não fazia perguntas. Koko não questionava sobre a sua condição em cativeiro, não tinha curiosidade em trocar informações com os seus tratadores, nem mesmo querer saber porque a comida naquele dia estava ligeiramente mais fria daquela que comeu no anterior.

 A conclusão que os cientistas finalmente chegaram é bastante reveladora e curiosa. A primata não tinha consciência de sua individualidade. Como se todos os indivíduos compartilhassem os mesmos conhecimentos sobre quaisquer fatos e emoções que passavam por suas mentes. O que para nós, humanos adultos e autoconscientes, soa como um grande absurdo. Ora, onde já se viu não saber distinguir entre o que se passa em seu pensamentos do que passa na cabeça dos outros?

O desenvolvimento da individualidade se mistura com o desenvolvimento da própria humanidade. A auto-expressão, seja por música, danças e rituais são constantes em praticamente todas as civilizações primitivas e (porque não?) modernas também. Foi com o amadurecimento do senso de questionamento que nasceram as primeiras crenças e religiões, buscando um explicação para fenômenos que simplesmente aconteciam, mas que ninguém entendia como funcionavam. Foi com o o avanço dessa sede por conhecimento que surgiu a ciência e o método científico. É essa vontade de saber que move e sempre moveu a civilização à frente.

Como posso juntar mais alimento sem precisar caçar tanto? É possível viver mais, morrer menos por doenças? E se nos organizarmos em grupos, cada um com sua função? Como posso ganhar mais dinheiro sem trabalhar tanto? De onde viemos? Qual o segredo da vida, do universo e tudo mais? Como usar a energia elétrica para tostar mais ou menos um pão? Como fazer para estocar vento?

O que conhecemos hoje como mundo contemporâneo é fruto de milhares de anos executando uma tarefa que Koko e seus parentes são incapazes de fazer: pensar por nós mesmos. E além disso, explorar nossa curiosidade e seus deslimites.

Se o egocentrismo humano é a causa dos maiores problemas do nosso mundo atualmente, foi a noção de individualidade que nos fez chegar onde estamos. Apenas fomos capazes de resolver grandes perguntas durante nossa história porque alguém, em algum lugar, teve a ousadia de questioná-las.