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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Retrospecto - Diário da Quarentena

O amor é amálgama. Nos versos de Camões, "transforma-se o amador na cousa amada [...], em mim tenho a parte desejada". Na mecânica, uma liga entre dois sólidos não é possível sem energia. Pode ser energia térmica, que arde e aquece até derretê-los. Em um novo estado, as diferentes matérias combinam-se em como líquidos, para depois retornar ao sólido em uma nova composição, única e unida. Pode ser também energia mecânica. Nesse caso, é necessário atrito, muito atrito ou ainda choque, compressão e estresse dos materiais. Isso pode os fragilizar, alterar suas propriedades fundamentais e criar pontos de tensão para possíveis rupturas no futuro. A dor e o ardor que transmutam-se na tábua de esmeralda do amor foi genialmente explorado pelo poeta português: como se pode fazer bem se tão contraditório é?

Contraditório e romanesco foi o ano de 2020. Um ano que colocou o viver sobre uma nova perspectiva. O viver e o conviver. O efeito estupefacente da pandemia expôs as entranhas do sistema social sobre o qual o mundo boia, sobre o qual a frágil e vulnerável raça humana tem empilhado os maiores feitos ao longo dos séculos. A morte, o caos e a solidão mudam a forma das pessoas verem sua própria existência; mudam a forma das pessoas encararem a realidade que a cercam; mudam a forma de prospectarmos e olharmos adiante. A morte coloca tudo em perspectiva. Ela nos custa tudo, custa a vida. Para muitos, foi o que definiu o início da nova década.

No entanto, existe uma palavra melhor para definir o ano pandêmico: o estro dos grandes poetas, o "não querer mais que o bem querer". 2020 pôs o amor à prova, em escala global. O que foi posto em cheque não foi o amor poético e romantizado, aquele amor dos casais apaixonados e dos mestres da Academia de Atenas. A humanidade teve que encarar o amor real e pragmático, aquele que traduz-se em atos concretos, a ponta de lança das relações humanas. O amor que colocamos à prova foi o amor cristão original, o amor de caridade e entrega, a fraternidade em sua essência mais pura, o sacrifício pessoal na cruz para a salvação dos outros. É fazer valer, como sociedade, o artigo terceiro da declaração dos direitos humanos.

As escolhas se apresentavam na frente de cada um, amar ou não amar, a cada dia. O ato de isolar-se para proteger; o ato de privar-se do prazer para que se fosse permitido aos outros viver; o ato de abrir mão da alegria instantânea para que ela fosse compartilhada no futuro. Doação do imediatismo, doação do próprio ego. Essa foi a essência do amor pragmático de 2020. Muitos tiveram êxito, muitos fracassaram. De qualquer forma, ele transforma. Transformou as amizades, separou quem ama de fato e quem se ama de fato. Transformou as relações pessoais, valorizando o caloroso dentro do frio isolamento. Transformou a caridade: não se faz por alguém, se faz por todos. 2020 mostrou, acima de tudo, se estamos preparados ou não para amar.

Na pandemia, vemos nós próprios nos outros. É mais um poder do amor, nas palavras do poeta lusófono: um claro espelho, onde no outro vereis a vossa alma. Uma mistura de sentimentos que só faz sentido quando vivido e partilhado coletivamente. Passamos e estamos passando juntos pela avalanche, por mais que existam gigantes rolando pedras pela encosta para tentar nos derrubar. Aos poucos que ainda optam por amar, que 2021 traga o sino da esperança ao campanário do carneiro. De 2020, fica a saudade, principalmente daqueles que se foram, literal e figurativamente. Segundo Camões: "Enquanto houver no mundo saudade, quero que sempre seja celebrada".

sábado, 31 de dezembro de 2016

Nas páginas de 2016


Em trezentas e sessenta e seis páginas foi escrito o romance de 2016. Talvez foram poucas. Talvez foram demais. Aquele que queríamos logo que iniciasse voando, mas que não vemos a hora de que dê seu último suspiro de despedida. Como um coelho, 2015 nos guiou para dentro deste misterioso ano, no qual caímos sem direção, rumo ao desconhecido. Ou será que nossa tempestade de expectativas nos fez pensar alto demais? Tão alto que a realidade futura não pode nos satisfazer? Agora, de fora deste planetinha isolado, conseguimos enxergar com mais clareza, o que hoje nos representa o velho.

O que 2016 deixou para nós? Fomos capazes de perdoar aqueles que nos injuriaram de alguma forma? Conseguimos romper as barreiras do mundo digital e trazer nossos sentimentos para, digamos, o mundo físico? Ou ainda a um mundo metafísico. O que 2016 representou para nosso estado de espírito? Para nosso equilíbrio emocional? Para nossa relação com o inexplicável? Fomos verdadeiramente felizes?

Não devemos ser como Romeu, clamando para que 2017 dê sentido a nossa vida. Talvez nos falte ousadia. Uma dose de loucura e desligamento do mundo, pelo menos de como o conhecemos. Pode nos faltar uma dose de rebeldia, roubar os planos tóxicos que orbitam sua vida e destruí-los para sempre. Ou ainda uma mudança de paradigma, no qual alguns anjos podem se mostrar demônios, o inferno pode-se tornar o céu e as mentiras, quem sabe, verdades. Talvez, mudando a perspectiva, aquelas estrelas tortas não poderão ter seu brilho desvelado?

Que olhemos o mundo com novos olhos em 2017, olhos de esperança e fraternidade, no qual o ódio não tem vez, no qual o amor prospere. Ao ano que passou, me resta um pedido de desculpas pelo inconveniente. Ao que está por vir, desejo que seja repleto de momentos que valham a pena serem vividos e que sejamos os autores e personagens principais do nosso próprio destino.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Olá, 2016. Sou eu!


Sabe, a primeira música que eu escutei em 2015 foi "Hoje!", da Ludmilla. No momento que eu escrevo esse texto, a música que está na minha mente é, infelizmente, uma do Wesley Safadão (nem sei o nome, o que me deixa um pouco mais aliviado). Acho que nesse instante que estamos 99% em 2016, mas ainda com aquele 1% em 2015, não existe maneira melhor de descrever como eu me sinto em relação ao que passou do que observar o histórico musical desse ano.

Quer dizer, a música da Ludmilla pode não ser considerada uma obra prima fantástica da história da música brega brasileira, mas é bastante animada e carismática. E combina muito bem com o clima de começo de ano: fala sobre propostas, diversão, expectativas, pegação e outras coisas mais que as pessoas esperam para um futuro próximo. Poderia muito bem tocar no Show da Virada da Globo se substituíssemos a palavra "hoje" por "nesse novo ano" e colocarmos o Roberto Carlos pra cantar. Talvez um pouco mais lenta também, para acompanhar os fogos de Copacabana. Ou alguma outra coisa que a emissora faz para tirar toda a graça das coisas legais. Enfim, cheio de expectativas, nosso ano começou. Ou começou só depois do Carnaval.

Carnaval é algo curioso. Ele está encaixado no calendário de modo milimetricamente perfeito para fazer com que esqueçamos completamente nossas resoluções de ano novo e voltemos para a mesma rotina tediosa/confortável que levávamos antes. Talvez ainda mais igualmente tediosa/confortável. De "novo"? Só teve o nome (ou número). E uns hits de carnaval a mais, que eu não dou a mínima. Iniciado 2015, finalmente, vivenciamos muitas emoções diferentes. Saudades, como descritas por Wiz Khalifa; tristezas, nas palavras de Adele; bagunças, do Baile de Favela; algumas viradas de página bem-humoradas da Taylor Swift e seus espaços em branco; rolaram até umas desculpas atrasadas (e ineficientes). Cada dia, cada experiência, cada música. Tudo pareceu se encaixar perfeitamente, como em um teatro Grego, em todos os seus momentos de sorrisos e de lágrimas. Chato seria se fosse diferente.

Nesse momento, nos resta tirar 1% do 1% do ano que sobrou (mais ou menos 40 minutos, para aqueles que são de humanas) e olhar cautelosamente para trás. Eu gosto de insistir, mesmo me achando sempre um cara extremamente boçal por fazer isso, que o ano só termina quando você decide que ele chegou ao fim. Nada adianta esperarmos mudanças se nós não saímos do lugar; nada vale esperarmos soluções se nós não conseguirmos ver os problemas em nós mesmos; nada adianta querermos a paz, se não aprendermos a semear o amor;

Resumindo, em 2016 não seremos 99% anjos se continuarmos 40% vagabundos. Resumindo o resumo, renove-se para buscar novos ares, aprendendo com o que passou e olhando para frente. Não existem recomeços! Resumindo o resumo do resumo, amem mais! Só o amor é capaz de ser mais poderoso que o dinheiro, só a compaixão é capaz de mudar uma vida (ou várias). Só a fraternidade acabará com as injustiças do nosso mundo.

Para todos, um Feliz, musical e amoroso Ano Novo! Até 2016!