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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O sino - Diário da Quarentena

 

Espera-se ansiosamente a quinta badalada. Isso representa, para o jovem operário, o fim de sua jornada de trabalho. Desde a primeira hora, na verdade, nada ocupa mais a mente do rapaz do que a perspectiva do fim. É na quinta badalada que seus problemas se encerram, se guardam nas gavetas do vestiário trancadas à chave. Era o milagre do sino. Na quinta badalada o rapaz estaria livre. Livre para que, na verdade? Livre, apenas. 

É lá fora que está a vida, não aqui. Lá as pessoas são alegres, sorridentes. Lá os casais trocam confidências e se amam despretensiosamente, sem regras de comportamento ou metas a bater. É lá que podemos dançar, beber, sair de nós e do nosso mundo, migrar para onde o tempo e o espaço não fazem tanto sentido. Aqui é o martírio, a prisão de Ícaro. A quinta badalada são as asas. Asas da liberdade e da morte.

Lá fora também está a morte. A violência, a dor. A dor é o caminho tortuoso. Morte sem dor pode ser um suplício, um lapso da existência em ruptura. A dor é a cruz. O poeta de Moçambique dizia que o mundo seria melhor se todos os mortos tivessem sido enterrados sorridentes. A morte é um processo degenerativo, morre-se em etapas. Primeiro morre a confiança, o afeto; depois se vão os amigos, a família, as âncoras; vão-se as horas, os dias, as luas e as luzes; por fim se vai a esperança e a fé. Quando nada mais resta, padece, finalmente, o corpo e a existência. Nesse processo, a dor toma o lugar do alegria; no leito derradeiro sobram-se poucos sorridentes. 

Os olhos jovens, no entanto, pouco enxergam da dor do oeste. O epílogo da existência é uma preocupação longínqua. A esperança arde, como as chamas do sexto círculo, chamando-os aos pecados do mundo que os aguardam. O trabalho é a prisão; o sino, a libertação. Esse é o dilema da esperança: enquanto ela se faz presente, o presente torna-se transitório. Em um presente transitório, pouco se faz para viver nele, no aguardo do futuro ideal construído no amálgama da esperança. Ela dá energia para prosseguir, suportar, mas pouca voz de comando à ação, à transformação.

O sino é a esperança. Tudo estará melhor após a quinta badalada. Basta o sino ressoar, chegar aos ouvidos dos trabalhadores, que a vida se inicia. O que fazer antes do sino? Não há antes. Há apenas o depois. E o mesmo se repete no próximo dia. E no seguinte. E no seguinte. A crueldade da esperança é a transitoriedade. Hoje ela é uma rocha, amanhã deve se metamorfosear para permanecer firme. O sino irá tocar, a liberdade chegará. Mas até o sol nascer mais uma vez. Na nova alvorada, espera-se o metal ressoar mais cinco vezes. 

O jovem caminha para casa, era o sexto badalar do sino. Sobe as escadas do prédio quando ouve-se a sétima. Come na oitava, banha-se na nona. Olha a noite escura pela janela, ouve-se os gritos distantes da cidade, décima. Na décima primeira o sono assoma-se. No abrir dos olhos, a esperança renasce, os grilhões estão novamente selados até a quinta badalada. Na quinta badalada o rapaz estaria livre. Livre para que, na verdade?

Livre, apenas.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Mudanças - Diário da Quarentena


Do melhor estilo kafkiano, um belo dia o mundo despertou dos seus sonhos intranquilos com um vírus mortal e desconhecido se proliferando. O que foi uma novidade súbita para a população em geral, era uma mina terrestre para epidemiologistas chineses, que estudavam a instabilidade viral por conta do consumo de animais silvestres no mercado de Wuhan a muitos anos, com diversos estudos publicados. O que importa é que não estávamos nem perto de ter o preparo necessário para evitar a pandemia e as centenas de milhares de vidas perdidas. As mudanças desencadeadas pelo súbito surto ramificam-se em diversos níveis e os questionamentos surgem e ressurgem sobre como a vida se organizará pós-pandemia.

A primeira indagação é sobre o tempo, o senhor do destino. Por quanto tempo estaremos em uma situação de exceção, isolados e fechados em nossas casas e, principalmente, convivendo com nós mesmos, sem escapes? Por quanto tempo continuaremos correndo o risco de nos infectarmos e colocarmos em perigo aqueles que amamos? Por quanto tempo seremos cobrados pela nossa negligência? Segundo Bento Santiago, para aqueles que têm promessa a pagar na Páscoa, a quaresma é curta. Talvez as dívidas que acumulamos por anos estão, enfim, sendo cobradas, com altos juros. Nosso extrato está no vermelho e não há crédito de carbono que compense a devastação que continuamos a causar. Nas palavras de ambientalistas brasileiros, destruir habitats não é eliminar os vírus que neles vivem, mas selecionar os mais adaptados para proliferarem em outras espécies, como a humana. É unânime, infelizmente: esta é apenas uma de muitas crises virais que teremos causado, em nossa fome por progresso. Crises sempre geram angústia, ansiedade e nervosismo. Novamente nas palavras machadianas, crises sempre duram séculos pra quem as vive, por mais curtas que sejam.

Outro ponto de debate é o conflito entre solidariedade e egoísmo. O quanto devemos nos unir para que juntos possamos garantir a minha sobrevivência e de quem amo? Redes globais de solidariedade têm tomado maiores proporções, em especial por estarmos combatendo um inimigo que não tem interesses escusos que não seja a primitiva e inconsciente perpetuação do seu material genético. Žižek discute, em uma de suas obras mais recentes, como esse modelo de rede de colaboração é necessário para que estejamos preparados para futuras ondas como a que imergimos. Para esse tipo de crise, não há apenas uma nação prejudicada, ou classe, ou etnia. É um momento para questionarmos nossos hábitos de consumo e produção, como lidamos com investimentos estatais para o bem estar social e como a sociedade civil se organiza em escala global em prol da sua própria sobrevivência. Transpassando os Estados-nação, a união social para resistir a recessão que seguirá será um teste para uma versão moderna e contemporânea das Internacionais do século XX. Se essa crise causará uma implosão no sistema capitalista global, apenas ele, o senhor da esperança, poderá dizer. Mecanismos protecionistas e imperialistas esboçam movimentos para se sobressaírem em uma disputa global por recursos, embora essa ainda não seja a regra. Mas como Harari cirurgicamente destacou, se sairmos dessa mais desunidos e egoístas do que antes, quem venceu foi o vírus. E este poderá ter sido apenas o primeiro round.

Por fim, existe uma mudança que é definitiva e permanente. Uma mudança irreversível para todos que estão envolvidos nela. A morte é como o vento, invisível e implacável; uma brisa suave e refrescante para alguns, uma lâmina gelada e devastadora para muitos. O que o vento carrega, se vai no horizonte, vemos como uma intocável lembrança aquilo que jamais alcançaremos novamente. Citando Machado uma terceira vez e pedido desculpas por inverter a frase do seu defunto personagem, os mortos não choram, entretanto jamais voltarão a sorrir. Passam de trezentos mil o número de vidas encurtadas pela Covid-19. Trezentas mil famílias vítimas da tempestade, com sorrisos amados varridos pelo sopro da morte. Aceitar as estatísticas é ser cúmplice de um genocídio global; abster-se de agir é sujar as mãos de sangue.

A perspectiva é prosseguirmos na escalada e, dia após dia, sentimos a tempestade se aproximando cada vez mais. Que nossa humanidade fale mais alto que o barulho do vendaval.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Pelo binóculo - Diário da Quarentena


A acomodação é uma forma distinta de manifestação do medo. O medo, em suas múltiplas faces, se apresenta em situações que colocam em cheque nossa individual percepção sobre nós próprios. É um sentimento particular que nasce da nossa paralisia pessoal diante de situações e tende a nos levar, irracionalmente, a penosas atitudes inconsequentes. Heidegger destaca que o medo nos tira a capacidade racional de atribuir sentido e nos deixa à mercê das perspectivas impostas, além de aquém das nossas próprias reflexões. O medo nos leva a postegar o inevitável, minimizar as consequências danosas da inércia e distrair-nos com a banalidade. O medo da morte, como o filósofo dedicou parte dos seus escritos sobre, é o mais ardiloso, pelo decesso ser infalível e habitualmente distante. Prazos largos são fáceis de sobrescrever, como as palavras machadianas outrora destacaram: a nossa imaginação os faz infinitos.

Distante era a ameaça no vírus quando surgiu na China e forçou as autoridades a fecharem um dos maiores complexos urbanos do mundo. O fechamento completo acendeu o alerta vermelho pelo planeta, e forçou países ocidentais a tomarem decisões raríssimas em democracias liberais, como a limitação na circulação e fechamento de comércios e demais setores destacados como não essenciais. Batendo na porta, a solução foi agir rápido. Hesitar seria brincar com a morte alheia, um jogo custoso de decisões de olhos vendados. A ciência é o guia e a medicina, a infantaria regular, fadada ao ônus da linha de frente, encarando o medo da morte. Chegando ao Brasil, no nosso lado, a realidade distante parece presente e a inércia da sociedade civil apresenta-se mais uma vez.

O que esperar de lideranças negacionistas e egoístas, que evitam diálogo e adotam o confronto permanente? O que esperar daqueles que negam a articulação e tentam impor as suas verdades ideológicas ao desmontar as instituições, entre elas o sistema universal de saúde? 

Há uma semana quarentenado em casa, vejo uma descoordenação geral das forças que deveriam estar agindo de forma articulada para combater a ameaça à vida das pessoas. Estamos rumando para o olho do furacão, que chegará antes da ficha cair, em um curto prazo. Que o medo, independente da origem, não nos paralise e que tomemos as decisões racionais e fundamentadas.

E esperamos, por ora, que Keynes esteja errado para o longo prazo.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O grande sim



Sim. A vida é composta por uma babélica sucessão de "sims". Quando aqueles dois gametas se encontram, dentro nas infinitas possibilidades, um sim em um milésimo de segundo é necessário para que se dê início a uma nova existência. Mudamos nosso destino quando dizemos sim àquele outrora estranho que agora segura um anel em nossa frente, com os aflitos olhos esperando a simetria dos sentimentos. Sim após sim construímos os alicerces, erguemos e reformamos as paredes que dão forma e robustez à vida que ousamos fazer parte. Mas o que é essa vida se não uma preparação para o último e derradeiro sim, que todos insistem negar com tanto afinco.

O galope dos dias nos levam muitas vezes a caminhos distintos, na maior parte deles aqueles que não ousaríamos a trilhar se não fôssemos empurrados pelas grandes forças que nos guiam. Roda-se o relógio; claro, escuro e claro novamente; olhos se abrem e se fecham, somente para abrir mais uma vez. Seria nossa vida uma mera distração para o momento em que eles não voltarão a se abrir? Choramos quando os queridos se vão e sofremos em existência um sofrimento que apenas os que existem podem compartilhar. Ansiamos por momentos e experiências, nossos rostos se enrugam em preocupações, prezamos pela vida sem nos dar conta de que ela simplesmente é o agora. Hoje é hoje. A grande dádiva do presente é que ele simplesmente é. E não precisa de nada para ser. A cada momento dizemos sim ao presente enquanto somos arrastados pela correnteza do destino.

Pergunto-me se os nostálgicos não temem tanto o hoje quanto os pretensiosos. Afinal, a grande vantagem do futuro é que ele pode ser o que quiser, pois na realidade ele não é nada. O mesmo eu sinto do passado: uma mistura distorcida dos fatos e dos sentimentos que não mais nos pertencem. Seria o medo do Anjo de Vestes Negras um temor por não atingir a felicidade que o utópico futuro aparenta reservar? Ou ainda a nauseante possibilidade de ficar eternamente preso em um soturno agora? Não seria a aversão ao desaparecimento apenas uma forma com que expressamos o desprazer com um presente insípido?

Chegará, pois, o dia em que enfrentaremos o destino e pagaremos todas as dívidas que os viventes hão de quitar. Com o mais importante dos sims, o último fechará o ciclo: de onde viemos, partiremos. Abraçaremos a morte como um reencontro de velhos amigos, talvez amigável, talvez pouco pacífico. De qualquer forma, cabe a nós sob o véu da consciência aceitarmos ou não o inevitável. Colher o dia vai além de não esperar o amanhã; é antecipar o grande sim e deliciar-se, sem culpa nem remorso, dos pequenos grandes sims da vida terrena, um a um.