terça-feira, 12 de setembro de 2017

A Terra é plana!


Sentado sobre a areia da praia, voltado para o oceano que se abre na minha frente, consigo avistar o horizonte, uma linha reta se estende por todo o meu campo de visão, demarcando os limites entre o céu e o mar. Uma visão semelhante do mundo tinha Aristóteles e Pitágoras, mirando o Mediterrâneo, por volta dos 300 a.C. A sensação é óbvia: estamos sobre um tablado, um piso de comprimento infinito, exceto por algumas montanhas ou ilhas no caminho. Nosso sistema sensorial age, nosso cérebro processa a perspectiva captada por nossos olhos e tira sua primeira conclusão, a terra é plana! Porém, meu caro leitor, você pode ficar surpreendido como sua mente é falha e amadora, principalmente para questões não triviais, e como um pouco de esforço cognitivo pode alterar a visão que temos do mundo e das situações cotidianas. Nesse caso vamos conversar sobre o planeta e, assim como os Gregos antigos, superar o impulso involuntário de planificar nosso globo mãe.

    → Por que a terra é plana?

Basicamente o cérebro humano é o mesmo desde a Idade da Pedra. De lá para cá pouco se alterou na biologia do órgão comandante da nossa espécie, desde nossos tempos de caçadores e coletores primitivos. Reagimos rapidamente aos estímulos provenientes de eventos externos sem muita reflexão sobre o que está realmente acontecendo. A seleção natural fez sua parte: os Sapiens que agiam dessa forma sobreviveram aos ataques de leões na savana e passaram seus genes adiante, enquanto os pobres retardatários viraram alimento dos felinos e sua falta de reflexos morreu com eles. Nossos ancestrais detectavam com facilidade movimentos nos arredores, seja uma pedra prestes a cair de um penhasco ou o local no gramado onde o coelho saltador pousaria após o pulo, pronto para ser apanhado. Em outras palavras, a física newtoniana era de entendimento imediato da nossa espécie primitiva. Felizmente herdamos essa capacidade, o que nos permite dirigir um carro em alta velocidade ou andar de bicicleta sem dificuldades, por exemplo. Mas nossa compreensão da macrofísica e da nanofísica, dos grandes corpos celestes ao núcleo dos átomos, é pouco intuitiva e exige esforço cognitivo, capacidade de abstração e grandes doses diárias de matemática.

Em um país onde o conhecimento de matemática aplicada não excede 4% da população, fica clara a tendência de aparecimento dos terraplanistas. Eratóstenes mediu o raio do planeta experimentalmente a 2200 anos em um experimento simples (vale uma pesquisa no YouTube, não?), mas que transcendia o ceticismo. Estações do ano, passagem dos dias, fazes da lua, por exemplo, são observadas/sentidas a todo instante pelos seres sencientes do planeta azul. No entanto, a compreensão básica das leis da inércia [3], formação dos astros e gravitação deve ser compreendida com base em experimentos realizados e replicados por milhares de cientistas ao longo dos anos e em modelos matemáticos muito bem definidos. Entendido, não sentido.

    → Por que dizem que a Terra é redonda?

Não é necessário nada além de uma leitura do primeiro módulo de mecânica clássica para concluir que a terra plana viola alguns dos princípios básicos da física Newtoniana (momentos de inércia e efeito giroscópico são boas leituras). Aristóteles e seus contemporâneos já tinham como certa a ideia da esfericidade do planeta, conceito que expandiu-se durante o período helenístico e perdurou até a modernidade (pesquisas contemporâneas destacam que mesmo durante a Alta Idade Média, na eclosão da revolução científica, quando os heliocentristas eram perseguidos pela Igreja, os intelectuais da época admitiam que o formato grego do planeta fazia sentido). É em um contexto de pós-verdade que tentaram passar um rolo compressor sobre a Terra.

Nossas ideias e visões do mundo são formadas com base em nossas emoções e sentimentos. Ratificá-las ou refutá-las é um trabalho cognitivo posterior e deve ser realizado de forma consciente. No momento da modernidade em que vivemos (em especial com a ascensão das redes sociais e da internet) juntar-se a um grupo de indivíduos com ideias semelhantes as suas é algo realizado automaticamente por algoritmos internos das grandes redes, tornando plausível a validação de ideias absurdas. É dentro dessas bolhas que a terra plana e outras teorias conspiratórias ganham força: unindo a pós-verdade e indivíduos pouco dotados de conhecimento científico de qualidade, em ambiente enviesado para confirmação das ideias e falta de confronto de opiniões.

    →  Faça você mesmo!

É dito aos ventos que a internet não criou os idiotas, mas uniu e deu voz a eles. Porém nenhuma hipótese deve ser descartada antes de ser testada. Por isso proponho um desafio aos terraplanistas: formule um novo modelo ao nosso adorado planeta Terra. Sobre esse novo modelo, aplique os conceitos da Física conhecidos e expanda o conhecimento da humanidade sobre o nosso lar. Francis Bacon já dizia que conhecimento é poder. Enquanto os recursos naturais e as vidas humanas são limitadas, o conhecimento pode expandir-se infindavelmente. Cientistas não temem a dúvida, por mais indigesta que ela pareça, por ser fundamental para a expansão do saber científico. A certeza, na maior parte dos casos, é uma limitação. Por isso, meu caro conspiracionista, não é a mim que você deve se dirigir e tentar convencer, mas toda a humanidade e a comunidade científica. Alguns fizeram isso, como Galileu, e mudaram o mundo. Quem garante que você não pode fazer o mesmo?

                       ---- Publicado originalmente pelo autor em <http://penseegratis.org/>

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Fendas na normalidade


Em sua recém-lançada trilogia para o público jovem, Ransom Riggs introduz ao mundo o seu universo fantástico. Baseado em sua coleção de fotos antigas, o autor relata as aventuras vividas por um grupo de crianças peculiares, cada uma apresentando alguma característica que as diferem dos seres humanos, digamos, convencionais. Os personagens são únicos e caricatos: um menino invisível convive diariamente com uma garota de força sobre-humana e um rapaz que é constantemente assolado por sonhos agoureiros, além de diversas outras personalidades presentes ao longo da trilogia. A trama principal circunda exatamente as peculiaridades de cada um e a dificuldade da inserção e aceitação das crianças em sociedade. O universo peculiar, no entanto, apresenta locais seguros, as fendas temporais, onde as personagens encontram refúgio e que, ao decorrer da história, vão desaparecendo e deixando-os desamparados perante o mundo real. A grande questão levantada pelo autor não poderia ser mais clara: como uma minoria pode ser aceita em sociedade fora do seu "gueto social"?

O preconceito é um dos grandes males da modernidade. Presente em todas as fases da existência da raça humana, o pré-julgamento alheio ganhou escala global e grande poder de disseminação com o advento da internet, em especial com a força da pós-verdade em um ambiente em que todos têm voz. A internet e as redes sociais uniram o preconceito ao anonimato, dando poder ao ódio aos diferentes, que antes ficava restrito àqueles que teriam coragem de se expor e, eventualmente, serem publicamente reprimidos. As crianças peculiares viviam isoladas, não por conta de se comportarem de forma diferente das crianças comuns, mas por alguns traços (por exemplo, característica física) que causava medo às pessoas não peculiares com as quais entravam em contato. O medo, uma das grandes bases do ódio, origina o preconceito. O medo é passional e irracional e não pode ser vencido sem uma grande dose de esforço cognitivo.

Como bem destacou Daniel Kahneman em seu grande livro Rápido e Devagar - duas formas de pensar, tomamos a maior parte de nossas decisões de forma automática, sem utilizar a nossa consciência, que entra somente em uma análise posterior das situações, se necessário. Essa condição nos diz muito sobre o processo de construção do preconceito, que ocorre com base nos sentimentos e, como já destacado, no medo que o diferente pode causar aos ignorantes. A tríplice do preconceito é clara: medo gera ódio, que é fortalecido pela ignorância. O preconceito de qualquer espécie, seja racismo, homofobia, antissemitismo é uma expressão de ódio poderosa, pois une as pessoas ao redor de um "inimigo" comum, disseminando a desinformação, fortalecendo a pós-verdade e eliminando o senso crítico, a única forma de quebrar o ciclo vicioso.

As doces crianças peculiares sofrem na pele a rejeição da sociedade, principalmente antes de serem resgatadas para as fendas temporais, com inúmeros casos de violência e torturas, físicas e psicológicas. É fácil fazer paralelo com a realidade. Homossexuais podem ser gays, desde que não sejam efeminados ou demonstrem afeto público, pois não tem o direito de serem livres, já que eu me reprimi durante toda a vida; negros podem trabalhar e serem meus amigos, mas ator negro, advogado negro e médico negros são incompetentes e foram colocados lá por cotas, já que esses papéis de destaque na sociedade só podem ser dos brancos por mérito; os peculiares podem existir, desde que trancados dentro de casa, pois tenho medo que meu estilo de vida que eu pertenço e domino seja ameaçado de alguma forma.

Se a falta de conhecimento é uma das bases do preconceito, apenas a informação pode romper essas barreiras de convivência e mostrar que, no fundo, todos temos nossas peculiaridades e que, como Ransom Riggs bem destaca, a única coisa que impede que vivamos pacificamente em sociedade é o desconhecimento. Cada vez mais as fendas temporais se dissolvem e os peculiares ganham seu espaço. Cada vez mais o preconceito deve perder o seu.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Poética


Ser poeta é um dom, eu diria. Escrever poemas não é uma tarefa fácil. Digamos que os poetas conseguem algo que muitos têm bastante dificuldade, colocar no papel seus sentimentos, de uma forma que não só agrade aos leitores, mas a ele próprio. O que seria do mundo se todos nós fôssemos poetas? Se todos tivessem a facilidade de expressar nossos sentimentos e liberar nossas angústias de maneira que não precisássemos guardá-las em nossos corações e deixando-as nos consumir de dentro pra fora, até afetar todos ao nosso redor? Bom, todos nós temos um lado poeta, com certeza. Fazemos poesia o tempo todo, seja com palavras amorosas para quem temos afeto ou apenas com pensamentos estranhos que vão e vêm. Sem nos darmos conta, nossa mente virou um livro de poesias, tão bonitas e profundas como as obras mais geniais de Drummond, mas tão inalcançáveis como os grandes sonhos de Vinícius de Moraes. Sentimentos são tão indescritíveis que, às vezes, quando paramos para refletir sobre eles, não chegamos a nenhuma conclusão. Sentimentos devem ser sentidos, não pensados. Por isso que admiro os poetas, não só por conseguirem fazer com que palavras (simplesmente palavras) ilustrem, mesmo que vagamente, seus sentimentos mais profundos e indelicados, mas também por tornar esse pequeno universo que ronda suas mentes, um motivo para que nós tentemos (e muitas vezes, consigamos) entender o nosso.

         --- TEXTO PUBLICADO EM MARÇO DE 2014

terça-feira, 4 de julho de 2017

A pós-moderna arte da guerra


Há cerca de sessenta mil anos, coabitavam o planeta duas populosas espécies humanas. Os europeus Neandertais disputavam recursos e território com os Sapiens, cuja expansão territorial já era expressiva e que não tardaria a conquistar os quatro cantos do planeta. Muitas são as teorias sobre o que teria causado a extinção dos Neandertais, desde uma erupção vulcânica que assolou o velho continente no período superior do pleistoceno até a falta de capacidade de adaptação às mudanças no ambiente em que habitavam, principalmente na península ibérica. Porém um aspecto interessante dos últimos séculos dessa raça humana foi a difícil convivência com seus irmãos Sapiens. Violentos, agressivos e inteligentes, nossa raça oprimiu e intimidou de forma unipolar os Neandertais, a ponto de sermos apontados como peça chave da extinção, não apenas destes, mas de inúmeras outras espécies com as quais convivemos ao longo da jornada rumo ao monopólio. Os Sapiens eram implacáveis nas batalhas, impiedosos nas vitórias e dominadores de recursos e territórios.

Parece estranho pensar nos homens pré-sedentários como similares a nós. Aprendemos a cultivar o solo, procriar animais, modelar o espaço em que vivemos. Levantamos cidades, fábricas; criamos códigos de conduta e mitologias diversas. Somos um povo diferente, exceto por um detalhe extremamente importante: dentro de nós, de cada núcleo de cada célula dos nossos tecidos dos nossos órgãos, somos praticamente idênticos aos velhos coletores e caçadores de outrora. Nosso DNA, a fórmula mágica do sucesso da nossa espécie, mantêm-se praticamente intocável ao longo dos milhares de anos que nos separam dos nossos antepassados paleolíticos. Em essência continuamos os mesmos. Os mesmos implacáveis, impiedosos e dominadores que fomos com os Neandertais. Mas agora nossas batalhas são outras.

Por volta de 500aC, nos meados da China feudal, Sun Tzu relatava suas estratégias de batalha em um best-seller mundial, A Arte da Guerra. Os escritos do general deveriam ser lidos de forma literal, como um guia de como se posicionar em combate, como contra-atacar e planejar seus cercos durante um período de guerras. O fato do manual chinês continuar sendo transcrito, traduzido e recomendado reforça ainda mais uma das ideias mais lugar-comum nos dias atuais: a vida moderna é uma eterna batalha. Os inimigos, nesse caso, são as demais peças do sistema que dita a nova modernidade (ou pós-modernidade, se couber a definição), os outros. Os outros são os colegas de trabalho, as grandes empresas de marketing, o gerente da seu escritório, os bancos, os governos, os vizinhos, os familiares. Todos os que podem interferir em seus planos de vida, te puxar para baixo, te dizer que não. Em outras palavras, a batalha da modernidade é do meu eu contra quem não me dá apoio.

O individualismo e o senso de independência social plantado, regado e resguardado pelo status-quo do capitalismo fluido é a base da ideia de que todos podemos qualquer coisa, desde que sejamos competentes o suficiente para vencer nossos próprios obstáculos, nem que isso custe o bem estar dos outros. Como Sun Tzu dizia, o objetivo principal da guerra é a paz, ninguém quer batalhar para sempre, mas todos queremos a vitória. A paz de uns (como as mulheres curdas nos ensinam bem) pode representar a desgraça de muitos. Mas os outros são os outros. Como o general já salientava, é necessário conhecê-los, visando explorar seus pontos vulneráveis, mas jamais expor os seus de forma demasiada. Os outros são aqueles que queremos trabalhando para nós, que queremos comprando nossos produtos, que dizemos que nos importamos, mas que devem ficar do outro lado do muro. Batalhas não são consensuais, guerras não são democráticas. Ou são um massacre do mais fraco ou um massacre generalizado. Sempre há muitas baixas.

Contra os Neandertais, a luta era espécie contra espécie; a luta já foi tribo contra tribo, reino contra reino, empresa contra empresa, família contra família. A fragmentação do coletivismo e o fortalecimento da identidade individual incorpora-se com o predadorismo da meritocracia desigual e torna o viver na nova modernidade um desfio de sobrevivência. O que o general chinês descrevia como campo de guerra, que deveria ser reconhecido e desbravado antes dos confrontos, hoje pode ser abstraído aos escritórios, estações de ônibus e redes sociais. O que outrora significava batalhar por territórios, hoje resume-se a buscar relevância; recursos pilhados equivalem-se aos likes. O que era um confronto de exércitos, hoje um confronto de indivíduos. Sempre lutamos por poder. O quanto isso se difere dos nossos antepassados?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A vida, uma ordem a ser decifrada

 
O caminho do trabalho até em casa era sempre o mesmo. Tomava um ônibus perto da escola onde lecionava, atravessando a cidade em meio ao trânsito metropolitano e descendo em um ponto a duzentos metros de onde morava, no Flamengo. O cansaço físico e mental da professora de literatura fazia Renata isolar-se na tela de seu celular durante todo esse percurso. O aparelho proporcionava-lhe as experiências mais satisfatórias do seu dia, um estado de controle absoluto que não conseguia em sala de aula, mesmo seus esforços exaurindo toda sua energia. Em suas redes sociais, Renata escolhia o que curtir, o que ler, quem acompanhar. Não precisava engolir desaforo, não precisava aturar bagunça; tudo estava organizado à sua maneira.

"Gostaria do poder de ordenar o trânsito, isso sim." De fato, o trajeto estava mais conturbado naquele dia. Buzinas de carros, motos, caminhões; táxis atravessando por entre os carros, em alta velocidade; xingamentos soltos ao vento, direcionados a todos e a ninguém. A professora, no entanto, não conseguia deixar de notar a estranha tranquilidade nas pessoas ao seu redor, todos dentro das campânulas de seus smartphones, ignorando propositalmente o mundo em que viviam. "Existe ordem no caos, com certeza." A frase, com trinta e três caracteres, o número divino de Pitágoras, agradava a Renata do Twitter, que tratou de colocá-la publicamente aos seus seguidores. Quando estudante de Letras, era entusiasta da Bíblia e o tempo apenas reforçou sua paixão literária pela obra. No momento pensava no Gênesis, no qual o nome de Deus foi curiosamente repetido trinta e três vezes. A conexão inesperada fervilhou sua mente. Pela janela do ônibus, a professora entendeu o motivo da confusão no trânsito, um acidente de moto obstruía uma das pistas. Ninguém, no entanto, parecia se importar com nada além do fato de que estariam perdendo tempo parados em seus veículos. A falta de compaixão e individualidade irritava a Renata do Facebook, que escreveu rapidamente um post de indignação, culpando os políticos, a polícia, os paramédicos e qualquer outro que estivesse no lugar e pudesse ser responsabilizado pelo transtorno. Ela, assim como os demais, apenas olhou de relance pela janela, e voltou ao celular.

Ao seu redor, todos pareciam em outras realidades. À direita, um senhor de meia idade trocava mensagens com futuras parceiras no Tinder; à esquerda, um rapaz capturava criaturas que se materializavam no chão do coletivo, visíveis apenas através da lente mágica do smartphone. Como se não bastasse a volatilidade do mundo real, os homens ainda criam seus próprios universos, da forma com que quisessem, para satisfazer seus desejos. Menos metafísicos, mais reais, mundos e mais mundos são projetados sobre o plano terreno, onde todos interagem, todos compartilham, mas só existem por que as pessoas de carne e osso acreditam em suas existências. Parada agora na Rua Frei Caneca, Renata do Instagram percebeu a oportunidade de um clique perfeito. Através da janela do ônibus destacava-se a arquitetura neomoderna ao fim da passarela do samba, o símbolo máximo da festa pagã mais famosa do país. "Irônico". A praça da Apoteose carregava um significado que a professora de linguística conhecia muito bem, ascensão. Tornar-se Deus. Na cabeça de Renata ficou claro que Deus fez o homem realmente à sua semelhança.

A internet e a sua suposta blindagem da realidade poderia ser considerada mística, principalmente a alguns anos. Renata era muitas dentro de sua bolha. Em cada website ela assumia um perfil distinto, seja ele fútil, politizado, indignado, confiante ou feliz. Era só uma questão do que publicar, do que curtir, do que compartilhar. Renata era dona da sua personalidade virtual, criava-se da forma que quisesse, de acordo com seu humor. No entanto, não era capaz de distinguir com clareza o que era real e o que era inventado. Os universos se misturavam, as realidades se confundiam. O homem criou seu próprio universo dentro do vazio da sua vida terrena. Aquilo fez Renata congelar por alguns minutos, pensativa e profundamente triste. Sua ordem havia quebrado e mergulhava novamente na correnteza da realidade.

Finalmente, ao chegar na margem do rio, levantou os olhos vermelhos e desceu do ônibus. Alguns minutos depois, estaria em casa. Como todas as noites, seu celular entrava na reserva de bateria. Suas energias estavam se esgotando. Tomou um banho, olhou-se no espelho do banheiro. A visão não a agradava. Deitou-se e enxergou-se na tela do celular, sentindo-se consolada com a imagem que agora via. Compartilhou uma frase bíblica em seu Snapchat e sorriu ao ver que tinha novos seguidores. 

Com as cortinas fechadas naquela noite clara, bloqueou a tela, pondo fim ao seu resto de luz e deixando a escuridão da noite guiá-la rumo à luz da manhã. Sob a lua, adormeceu pensando em si mesma, decidindo-se como renasceria no dia seguinte.

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Alguém, em um lugar distante abria seu Snapchat e passava pelo perfil não muito interessante de uma professora de português, sem entusiasmo algum. Curtiu uma frase compartilhada por ela, não muito original. Apagou a tela do celular, sem ao menos refletir sobre o que tinha acabado de ler. Com trinta a três caracteres, a dor de Renata era obscura, invisível e perdida no caos: Seja feita a vossa vontade. Amém!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Uma sociedade de vitrine


Escrevo estas palavras do meu smartphone. Transcrevo meus pensamentos em palavras, como meu avô fazia em um guardanapo, no bar em que outrora frequentava. As deles morriam amassadas e jogadas no cesto de lixo, junto com algumas garrafas vazias de cerveja. As minhas transformam-se em bits, viajam a velocidade da luz, da palma da minha mão até algum lugar no globo, onde ficam armazenadas do servidor de alguma empresa especializada. Nem mesmo eu sei onde minhas frases foram repousar. Com alguns cliques, porém, posso recuperá-las novamente, bastando o acesso a essa gigantesca rede e sabendo quais palavras chaves digitar no topo do navegador. Navegamos de uma forma que os patronos da marinha nunca imaginaram antes ser possível: não apenas nas ondas eletromagnéticas dos sinais das telecomunicações, navegamos na liquidez da sociedade que nos cerca.

Flexibilidade é o termo que ocupa a cabeça dos grandes empresários e profissionais liberais mundo a fora. A grande tendência é ser capaz de adaptar os produtos e serviços oferecidos ao cada vez mais mutável mercado consumidor. O capitalismo que estamos submersos afasta-se dia após dia do megalomaníaco modelo fordista, tornando-se leve, enxuto, capaz de cruzar fronteiras como nunca antes visto, cada vez menos dependente dos espaços físicos e mais propício a aventurar-se em locais diferentes, sem medo de desaparecer subitamente. O capital abstraiu-se, desalocando suas forças do maquinário e mão de obra pesada, nas plantas industriais, para ações na bolsa e projetos de engenharia, dentro de escritórios em arranha-céus. Pela primeira vez na história da modernidade a relação de dependência mútua empresa-trabalhador parece estar caminhando ao seu epitáfio. Em seu lugar assume a grande nova dependência capital-consumo.

Por mais que Ford admitisse o contrário, sua estratégia de elevar os salários de seus operários era muito mais uma estratégia de manutenção da mão de obra altamente rotativa em suas fábricas do que torná-los consumidores de seus veículos. Passados cem anos, a lógica desdobrou-se ao avesso, com um intenso incentivo ao consumo que move a roda d'agua da economia mundial. O impacto dessa reviravolta é uma mudança completa de paradigma nas vidas humanas: passamos a ver o mundo com os olhos de consumidores, cada vez menos responsáveis pelas coisas que nos cercam.

O cerne da chamada liquefação da modernidade é a metamorfose de um mundo de produtores para uma sociedade de clientes e compradores. As relações entre as pessoas tornam-se cada vez mais descartáveis e frágeis; a relação com o público torna-se dia após dia mais distante, como se fôssemos apenas meros usuários desses serviços, não responsáveis pelo bem-estar coletivo; os interesses particulares ganham cada vez mais força, o individualismo cresce (o consumismo é uma satisfação solitária); a política torna-se um seriado de televisão, assistimos cada vez mais como espectadores, menos como cidadãos.

Enquanto digito esses caracteres, isolo-me na tela do meu celular, mas nunca estive tão conectado. Como o guardanapo do meu avô, o que escrevo pode se perder no limbo de informações da web e nunca ter um leitor. Mas a ilusão da conexão me incita a continuar digitando. A cada dia nos sentimos mais pertencentes ao virtual, mas menos existentes no plano físico. Passeamos pela vida como em um shopping center, julgando os momentos como vitrines, os acontecimentos como produtos e as pessoas como manequins, buscando aqueles que atendam unicamente as nossas necessidades individuais. Por esses corredores andamos solitários.

Cada vez mais solitários.

quarta-feira, 8 de março de 2017

MINIMUM - Libertação

Falsidades e artimanhas constroem castelos de cartas. O sopro da realidade abala sua estrutura. Trancamos em cofres, isolando-os da brisa que os podem desmantelar. Entre quatro paredes metálicas estamos restritos, enclausurados, isolados. Abrirão a tranca, pois, aqueles cujos atos são intimamente legítimos e as palavras carregadas da mais pura verdade. Substitui-se o papel por tijolos e concreto. Sem medo da tempestade, podemos sob a estrutura apoiarmos e, além do nunca antes visto, enxergarmos.