sábado, 21 de janeiro de 2017

Mas o que é isso?

 

O fato mais curioso em relação ao inexplicável é que ele é impossível de explicar. Alguns tentam: olham em livros, nas estrelas, em baixo do sofá ou até em revistas de fofocas sobre sub-celebridades decadentes da web, mas a resposta não está em lugar nenhum. Primeiramente porque o inexplicável é tão inexplicavelmente irresponsível que não se sabe nem ao certo qual é a pergunta. Em segundo, mesmo que encontremos uma resposta minimamente convincente sobre uma pergunta que ninguém sabe qual é, ninguém vai se convencer, porque ninguém sabe ao certo qual é pergunta que estão tentando convencê-las de sua corretude. E o ciclo continua até que ele se rompe, do nada, quando alguém consegue uma explicação plausível.

Nada, ao contrário do que muitos pensam, pode representar uma infinidade de coisas. Quando sua esposa aparece do nada em casa e te surpreende com a amante, certamente ela veio de algum lugar concreto, com informações concretas sobre seus contatinhos e morrendo de vontade de despedaçar sua cabeça em uma parede de concreto. Quando uma pessoa desequilibrada responde que "tudo está bem, não aconteceu nada", muito provavelmente as coisas que lhe aconteceram transcendem uma capacidade racional de interpretação dos sentimentos alheios, por isso é mais fácil utilizar o "nada" como trunfo e escapar dessa situação constrangedora, voltando a um isolamento depressivo interno e com tendências mortalmente suicidas. Encontrar uma explicação do nada para um evento inexplicável pode significar, entre várias coisas, todas as coisas possíveis de terem algum significado conhecido, já que ela simplesmente veio do nada.

Basta uma explicação ser descoberta para que um fato deixe de ser inexplicável. Podemos dizer, sem muitas dificuldades de entendimento, que todos os fatos cuja explicação é conhecida já foram, em algum momento da sua existência, inexplicáveis. A não existência de um fato exatamente inexplicável remete-se a mania pouco divertida dos seres humanos de tentarem fazer com que tudo tenha sentido, desde coisas banais como uma lógica nos números da loteria até situações realmente relevantes, como o porquê da torrada cair sempre com a manteiga para baixo ou a origem do penteado do Trump. Se a explicação não existe basta criarmos uma qualquer, utilizando o mínimo de bom senso possível, espalharmos nas redes sociais que, do nada, milhares de pessoas estarão tornando-a verdade.

A verdade é, assim como o explicável, algo que sempre vai existir, inclusive e principalmente quando ninguém sabe ao certo sobre o que estão querendo explicar de fato. Atrás das explicações bizarras e das verdades esdrúxulas sempre existirá uma legião de fantoches humanos, que farão as portas se doerem em suas fibras de madeira por terem a capacidade cerebral comparada a desses homo sapiens que engolem qualquer asneira para, incrivelmente, não se acharem asnos dentro do seu mundinho onde tudo tem que fazer sentido, na maior parte das vezes de acordo com seus princípios preexistentes.

Estudiosos, do nada, surgem com explicações extremamente complexas e fatigantes sobre acontecimentos simples e cotidianos. Pseudo-estudiosos da internet, do nada, surgem com explicações surpreendentemente simples e fáceis para os acontecimentos mais complexos do universo (notemos que "do nada" apresenta significados extremamente distintos em ambos os contextos). Em ambos os contextos falamos de seres humanos: um deles com muita curiosidade e entusiasmo para quebrar esse ciclo; outro totalmente desconfortável por estar preso dentro dele e com medo do que está fora de sua aconchegante casinha de boneca. Inexplicavelmente, da mesma espécie animal. Inexplicavelmente, tão diferentes.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O sonho do Faraó




Em uma noite, o Faraó teve um sonho. Um sonho estranho, com um significado obscuro. Logo, recorreu a todos os sacerdotes e sábios do reino do Egito, mas ninguém soube explicar seus devaneios noturnos. Se Freud fosse chamado para prestar explicações ao Rei diria que seu sonho foi uma expressão do seu inconsciente, desvelando seus desejos e aspirações mais profundas. Se o Faraó tivesse contatado Jung, por outro lado, ele o aconselharia a prestar atenção nos sinais e nos símbolos que estavam presentes em suas visões. Para este outro, os sonhos mostram a realidade que o cercava, uma expressão do inconsciente coletivo, de forma simbólica. Infelizmente para o Rei do Egito, ele viveu muitos milênios antes dos psicanalistas. Teve, então, que recorrer, como sua última esperança, ao hebreu José, filho de Israel.

Deus age através dos fatos, dos acontecimentos. Eis a grande barreira da fé: a sensibilidade de vislumbrar a ação divina nas coisas mais corriqueiras do cotidiano. Aqueles que alcançam a plenitude da fé conseguem observar as situações terrenas com os olhos de Deus. José tinha este dom e usou-o para ganhar a confiança do Faraó e sair do encarceramento que o mantivera isolado por vários anos. Com uma visão que deixaria Jung orgulhoso, o hebreu observou os símbolos presentes nos sonhos do Rei e os analisou no contexto social do povo Egípcio. Com isso, José adotou uma política pública adequada, que salvou o povo da miséria e da fome iminente.

Para os antigos, os sonhos eram a forma com que Deus se comunicava diretamente com as pessoas. Utilizando uma abordagem junguiana, podemos entender os sonhos como uma expressão daquilo que nos permeia socialmente, mas não são ações deliberadas: o famoso inconsciente coletivo. Esta coletividade interfere no que cada um sente e deseja. Nossos sonhos são reflexos do que acontece em nossas vidas, do que entramos em contato dia após dia.

Somos permeados por milagres. Muitos deles, não somos capazes de compreender. Em alguns isso gera frustração, ódio. Mas, assim como José nos ensina, um dos objetivos da fé é a abertura ao inexplicável, não como algo misterioso ou obscuro, mas como um horizonte de possibilidades a serem exploradas sem medo, pois a trilha divina é uma estrada esburacada, com pedágios e sem retornos, mas que nos leva onde devemos chegar.

Talvez nos falte uma dose de humildade, para os ajoelharmos perante ao desconhecido e deixarmos que ele nos guie através de nossa caminhada. Ou talvez nos falte certa coragem para isso.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Um brilho que a todos pertence


Romper preconceitos é uma tarefa que demanda um grande esforço cognitivo. Isso se deve ao fato de termos, de maneira deliberada, que livrar-nos de uma primeira impressão construída de forma associativa por nosso inconsciente. Nossa visão do mundo é moldada, a princípio, por uma série de conexões e padrões que temos em nosso cérebro. Talvez isso seja o grande motivo de sucesso da raça humana: não precisamos de instintos naturais que nos guiem por toda a vida; nós construímos um próprio modelo do mundo que nos cerca, e tentamos encaixar as informações externas que recebemos a ele. E esse modelo se atualiza com o decorrer da nossa existência. Mesmo sendo fundamental para os seres humanos, esse sistema pode nos causar impressões incorretas do que está ao nosso redor, em alguns casos. Daí surgem os preconceitos; por isso ele demanda mais do nosso cérebro para ser desconstruído.

Estamos cada vez mais individualistas e solitários, um fruto da modernidade líquida em que imergimos. Isso faz com que interpretações pessoais do mundo ganhem força, em detrimento das coletivas. Basta nos unirmos com pessoas que pensam como nós em diversos pontos, com poucas divergências que favoreceriam algum tipo de debate, um enclausuramento social. Voilà! Temos o contexto menos ideal para eliminarmos os preconceitos, e o habitat perfeito para que eles se fortaleçam.

Rowling nos instiga a esse debate no seu romance Morte Súbita. A autora best-seller constrói, no pequeno e tradicional vilarejo de Pagford, uma trama costurada ao redor da personalidade de cada um que compõe a história. JK cria uma bolha: dentro dela os moradores mais antigos da vila lutam contra o crescimento de um bairro de periferia em suas fronteiras. O enredo é pleno de análises comportamentais, tratando desde problemas familiares até polarização política. Mas a grande lição que se tira é, nas palavras da própria autora, a dificuldade de "enxergar o brilho de Deus em todas as pessoas". O bloqueio de olhar através de um filtro que nos cerca e nos colocarmos no lugar dos outros, para assim entendermos como parte da sociedade chega nas situações mais marginais da vida humana.

No desenrolar dos acontecimentos, entramos em contato com um universo cheio de preconceitos e inflexões, regido por um reacionarismo cego, que acaba afetando negativamente a vida de todos que o compõe. Uma cegueira muito comum além da ficção das páginas de Rowling. Uma cegueira que elimina a humanidade daqueles que comentem atrocidades. Afinal, não nascemos pré-programados para matar, para roubar. Viemos todos ao mundo com o mesmo brilho. O que nos faz apagar?

A mensagem passada pela autora não é única, muito menos original. Mas é difícil de ser entendida: exige compaixão, caridade e ternura. Obviamente, muito mais árdua de ser colocada em prática. Romper preconceitos doí, estar errado doí, sair do conforto da bolha doí muito. Estamos prontos para suportar essa dor pelos outros?

sábado, 31 de dezembro de 2016

Nas páginas de 2016


Em trezentas e sessenta e seis páginas foi escrito o romance de 2016. Talvez foram poucas. Talvez foram demais. Aquele que queríamos logo que iniciasse voando, mas que não vemos a hora de que dê seu último suspiro de despedida. Como um coelho, 2015 nos guiou para dentro deste misterioso ano, no qual caímos sem direção, rumo ao desconhecido. Ou será que nossa tempestade de expectativas nos fez pensar alto demais? Tão alto que a realidade futura não pode nos satisfazer? Agora, de fora deste planetinha isolado, conseguimos enxergar com mais clareza, o que hoje nos representa o velho.

O que 2016 deixou para nós? Fomos capazes de perdoar aqueles que nos injuriaram de alguma forma? Conseguimos romper as barreiras do mundo digital e trazer nossos sentimentos para, digamos, o mundo físico? Ou ainda a um mundo metafísico. O que 2016 representou para nosso estado de espírito? Para nosso equilíbrio emocional? Para nossa relação com o inexplicável? Fomos verdadeiramente felizes?

Não devemos ser como Romeu, clamando para que 2017 dê sentido a nossa vida. Talvez nos falte ousadia. Uma dose de loucura e desligamento do mundo, pelo menos de como o conhecemos. Pode nos faltar uma dose de rebeldia, roubar os planos tóxicos que orbitam sua vida e destruí-los para sempre. Ou ainda uma mudança de paradigma, no qual alguns anjos podem se mostrar demônios, o inferno pode-se tornar o céu e as mentiras, quem sabe, verdades. Talvez, mudando a perspectiva, aquelas estrelas tortas não poderão ter seu brilho desvelado?

Que olhemos o mundo com novos olhos em 2017, olhos de esperança e fraternidade, no qual o ódio não tem vez, no qual o amor prospere. Ao ano que passou, me resta um pedido de desculpas pelo inconveniente. Ao que está por vir, desejo que seja repleto de momentos que valham a pena serem vividos e que sejamos os autores e personagens principais do nosso próprio destino.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os muros da sanidade


Era na Casa Verde que o Dr. Bacamarte mantinha os loucos. O sanatório de Itaguaí descrito no conto machadiano era a bancada de estudos do alienista. Nele, o médico internava quem achasse que possuía algum transtorno da normalidade, sejam psíquicos ou comportamentais. Baseado em uma lógica pouco científica, Bacamarte passou a hospitalizar todos aqueles que apresentavam qualquer discrepância do seu padrão de normal. Em certo ponto, atingiu mais de metade dos moradores da cidade fluminense. Eram os muros da Casa Verde que separavam os loucos dos não-loucos. Nas palavras de Foucault, cumpria o papel de um hospício, o de informar a todos o único lugar onde vivem os anormais.

Afinal, o que é ser louco? Para alguns, passar a noite na casa de um estranho que conheceu na balada é loucura; para outros, pegar um empréstimo para viajar com a família, mesmo sem saber se terá condições de pagar é loucura; para muitos, apaixonar-se é a maior das loucuras. Ao ser internada no sanatório de Villete após tentar se matar, Veronika se vê em um ambiente incomum. Lá, doentes mentais que precisam de acompanhamento se misturam com pessoas de mente sadia, mas que temem o mundo externo. O conforto que encontram dentro das paredes do hospital psiquiátrico é devido a liberdade da hipocrisia. Lá podem ser quem querem ser. Não precisam seguir padrões, não precisam fingir gostar ou não de alguém, não precisam omitir os sentimentos. Em Villete todos eram loucos, simplesmente por não precisarem forçar a ser o que os outros chamam de normal, mas que adoece a todos.

Paulo Coelho engenhosamente chamou essa praga de Amargura. A amargura que atinge aqueles adultos que reprimiram seus sonhos na juventude para seguir uma vida mundana comum e confortável, mas que olham os jovens lutando pelos seus desejos e os julgam desvirtuados. Aquela amargura do infeliz casal normal que olha com desprezo a enxurrada de felicidade de um casal gay anormal. A mesma amargura que vive naqueles que invejam a mulher que dorme com vários homens em uma única noite, mas que são limitados por suas religiões a fazerem o mesmo. Veronika, também afetada por esta doença, descobre neste ambiente sem barreiras a sua única cura: o amor pela vida e a vontade de viver intensamente cada dia, livre das amarras do socialmente correto e do filtro de hipocrisia que antes julgava suas ações.

Bacamarte conclui, após suas experiências fracassadas, que, de perto, todos são loucos. Para as freiras, são loucas as prostitutas e vice-versa. Nada além de mim pode ser considerado normal e, como comprova o alienista, eu sou desequilibrado aos olhos dos que me cercam. Veronika e Bacamarte descobrem suas próprias loucuras; para ela, significou sua liberdade; para ele, seu cárcere; para ambos, uma revelação de um novo mundo.

Sob o véu da loucura, oculta-se o regozijo. Quem são os loucos de fato? Aqueles que se libertam para a felicidade ou aqueles que a limitam, com medo do julgamento alheio? 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MINIMUM - A Busca

Afinal, porque buscá-lo nos céus, nas laudas de um livro, nas palavras dos homens? Por qual motivo carecemos de evidências, grandes feitos, milagres? Seria a vida simples demais, banal demais para não enxergarmos em si o maior dos milagres? Seríamos vaidosos e egoístas em excesso para notá-lo através da grandiosidade do mundo que nos cerca? Continuamos seguindo à risca palavras vazias, enquanto demolimos sua obra, pregando o ódio, destruindo vidas, extinguindo a natureza, enterrando a paz.

sábado, 3 de setembro de 2016

Demônios modernos para o homem moderno


Escrito a partir de 1500 a.C., o livro mais vendido da atualidade também vigora entre os mais antigos da categoria e o mais longo a ser finalizado, aproximadamente 1600 anos até a versão que conhecemos atualmente. Mesmo três mil e quinhentos e poucos anos depois, a Bíblia continua sendo um livro de referência para a sociedade contemporânea, transcendendo o limite das religiões e moldando a base da moral e da ética ocidental como a conhecemos. Três mil e quinhentos anos atrás. O alfabeto com o qual escrevo esse texto, estava nos primeiros estágios do nascimento. Os caracteres que transmitem a mensagem da Bíblia hoje em dia datam de apenas algumas décadas de distância dos primeiros escritos do livro. O tempo parece não ser um problema para a imortalidade bíblica. A questão é entendermos o porquê.

As sagradas escrituras cristãs apresentam algumas características únicas, muito interessantes quando as olhamos de um referencial privilegiado: elas são um conjunto de linguagens, separadas por centenas de anos e diferentes estruturas sociais. E como uma linguagem, a Bíblia é uma ferramenta para se transmitir todo tipo de informação. Mostro-lhes um enxerto que descreve a ira de Deus Todo-Poderoso àqueles que não obedecem as suas regras, seguido por uma sequência de leis retiradas a dedo de alguns livros do Velho Testamento; moldo um perfil social específico. Em outro momento separo passagens de Jesus pregando o amor como bilhete de entrada no paraíso e uno-as com uma frase do Levítico que dita o amor homem-mulher como o verdadeiro amor de Deus; moldo outro grupo de pessoas. O que faz da Bíblia um livro único e imortal é o fato dela ser multi-interpretativa, muitas Bíblias em uma só, cada uma compatível com o perfil de alguém em algum período histórico.

A teologia da prosperidade é um exemplo contemporâneo, contrastando Pastores neopentecostais e padres Franciscanos, como se ambos seguissem diferentes ensinamentos, deuses diferentes. São duas visões do mesmo texto. Assim como grupos no Facebook, as religiões atraem pessoas que pensam de forma semelhante, interpretam as escrituras com um ponto de vista comum e ignoram aquilo que não as convém. Os cristãos querem e buscam o melhor dos dois mundos: onde os pecados são apenas aquilo que não fazem parte de seu comportamento e o caminho correto para o reino dos céus é o estilo de vida que levam. Uma cegueira intencional, na qual os demônios estão nos outros e não dentro de cada um deles; na qual a vaidade e o orgulho de serem os únicos convidados para a ceia do Senhor são apenas detalhes inconvenientes.

A Bíblia moldou (e ainda molda) o mundo, mas as sociedades têm um poder igualmente grande para dizer o que está lá escrito. É chocante pensar que o mesmo texto que guiou a Inquisição da Idade Média hoje arrasta multidões da Renovação Carismática. Não é difícil concluir que o mesmo pode ocorrer com os outros demais fundamentalismos mundo a fora. Basta um pouco menos de preconceito, um pouco mais de visão fora da caixa.

A Bíblia se mostrou, ao longo de inúmeras gerações, ser o mais poderoso dos escritos: Deus descrito pelas mãos de homens, para ser lido pelos homens e interpretado por grupos de homens. E a palavra de Deus é soberana; a palavra do Senhor é incontestável. Amém!