terça-feira, 4 de julho de 2017

A pós-moderna arte da guerra


Há cerca de sessenta mil anos, coabitavam o planeta duas populosas espécies humanas. Os europeus Neandertais disputavam recursos e território com os Sapiens, cuja expansão territorial já era expressiva e que não tardaria a conquistar os quatro cantos do planeta. Muitas são as teorias sobre o que teria causado a extinção dos Neandertais, desde uma erupção vulcânica que assolou o velho continente no período superior do pleistoceno até a falta de capacidade de adaptação às mudanças no ambiente em que habitavam, principalmente na península ibérica. Porém um aspecto interessante dos últimos séculos dessa raça humana foi a difícil convivência com seus irmãos Sapiens. Violentos, agressivos e inteligentes, nossa raça oprimiu e intimidou de forma unipolar os Neandertais, a ponto de sermos apontados como peça chave da extinção, não apenas destes, mas de inúmeras outras espécies com as quais convivemos ao longo da jornada rumo ao monopólio. Os Sapiens eram implacáveis nas batalhas, impiedosos nas vitórias e dominadores de recursos e territórios.

Parece estranho pensar nos homens pré-sedentários como similares a nós. Aprendemos a cultivar o solo, procriar animais, modelar o espaço em que vivemos. Levantamos cidades, fábricas; criamos códigos de conduta e mitologias diversas. Somos um povo diferente, exceto por um detalhe extremamente importante: dentro de nós, de cada núcleo de cada célula dos nossos tecidos dos nossos órgãos, somos praticamente idênticos aos velhos coletores e caçadores de outrora. Nosso DNA, a fórmula mágica do sucesso da nossa espécie, mantêm-se praticamente intocável ao longo dos milhares de anos que nos separam dos nossos antepassados paleolíticos. Em essência continuamos os mesmos. Os mesmos implacáveis, impiedosos e dominadores que fomos com os Neandertais. Mas agora nossas batalhas são outras.

Por volta de 500aC, nos meados da China feudal, Sun Tzu relatava suas estratégias de batalha em um best-seller mundial, A Arte da Guerra. Os escritos do general deveriam ser lidos de forma literal, como um guia de como se posicionar em combate, como contra-atacar e planejar seus cercos durante um período de guerras. O fato do manual chinês continuar sendo transcrito, traduzido e recomendado reforça ainda mais uma das ideias mais lugar-comum nos dias atuais: a vida moderna é uma eterna batalha. Os inimigos, nesse caso, são as demais peças do sistema que dita a nova modernidade (ou pós-modernidade, se couber a definição), os outros. Os outros são os colegas de trabalho, as grandes empresas de marketing, o gerente da seu escritório, os bancos, os governos, os vizinhos, os familiares. Todos os que podem interferir em seus planos de vida, te puxar para baixo, te dizer que não. Em outras palavras, a batalha da modernidade é do meu eu contra quem não me dá apoio.

O individualismo e o senso de independência social plantado, regado e resguardado pelo status-quo do capitalismo fluido é a base da ideia de que todos podemos qualquer coisa, desde que sejamos competentes o suficiente para vencer nossos próprios obstáculos, nem que isso custe o bem estar dos outros. Como Sun Tzu dizia, o objetivo principal da guerra é a paz, ninguém quer batalhar para sempre, mas todos queremos a vitória. A paz de uns (como as mulheres curdas nos ensinam bem) pode representar a desgraça de muitos. Mas os outros são os outros. Como o general já salientava, é necessário conhecê-los, visando explorar seus pontos vulneráveis, mas jamais expor os seus de forma demasiada. Os outros são aqueles que queremos trabalhando para nós, que queremos comprando nossos produtos, que dizemos que nos importamos, mas que devem ficar do outro lado do muro. Batalhas não são consensuais, guerras não são democráticas. Ou são um massacre do mais fraco ou um massacre generalizado. Sempre há muitas baixas.

Contra os Neandertais, a luta era espécie contra espécie; a luta já foi tribo contra tribo, reino contra reino, empresa contra empresa, família contra família. A fragmentação do coletivismo e o fortalecimento da identidade individual incorpora-se com o predadorismo da meritocracia desigual e torna o viver na nova modernidade um desfio de sobrevivência. O que o general chinês descrevia como campo de guerra, que deveria ser reconhecido e desbravado antes dos confrontos, hoje pode ser abstraído aos escritórios, estações de ônibus e redes sociais. O que outrora significava batalhar por territórios, hoje resume-se a buscar relevância; recursos pilhados equivalem-se aos likes. O que era um confronto de exércitos, hoje um confronto de indivíduos. Sempre lutamos por poder. O quanto isso se difere dos nossos antepassados?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A vida, uma ordem a ser decifrada

 
O caminho do trabalho até em casa era sempre o mesmo. Tomava um ônibus perto da escola onde lecionava, atravessando a cidade em meio ao trânsito metropolitano e descendo em um ponto a duzentos metros de onde morava, no Flamengo. O cansaço físico e mental da professora de literatura fazia Renata isolar-se na tela de seu celular durante todo esse percurso. O aparelho proporcionava-lhe as experiências mais satisfatórias do seu dia, um estado de controle absoluto que não conseguia em sala de aula, mesmo seus esforços exaurindo toda sua energia. Em suas redes sociais, Renata escolhia o que curtir, o que ler, quem acompanhar. Não precisava engolir desaforo, não precisava aturar bagunça; tudo estava organizado à sua maneira.

"Gostaria do poder de ordenar o trânsito, isso sim." De fato, o trajeto estava mais conturbado naquele dia. Buzinas de carros, motos, caminhões; táxis atravessando por entre os carros, em alta velocidade; xingamentos soltos ao vento, direcionados a todos e a ninguém. A professora, no entanto, não conseguia deixar de notar a estranha tranquilidade nas pessoas ao seu redor, todos dentro das campânulas de seus smartphones, ignorando propositalmente o mundo em que viviam. "Existe ordem no caos, com certeza." A frase, com trinta e três caracteres, o número divino de Pitágoras, agradava a Renata do Twitter, que tratou de colocá-la publicamente aos seus seguidores. Quando estudante de Letras, era entusiasta da Bíblia e o tempo apenas reforçou sua paixão literária pela obra. No momento pensava no Gênesis, no qual o nome de Deus foi curiosamente repetido trinta e três vezes. A conexão inesperada fervilhou sua mente. Pela janela do ônibus, a professora entendeu o motivo da confusão no trânsito, um acidente de moto obstruía uma das pistas. Ninguém, no entanto, parecia se importar com nada além do fato de que estariam perdendo tempo parados em seus veículos. A falta de compaixão e individualidade irritava a Renata do Facebook, que escreveu rapidamente um post de indignação, culpando os políticos, a polícia, os paramédicos e qualquer outro que estivesse no lugar e pudesse ser responsabilizado pelo transtorno. Ela, assim como os demais, apenas olhou de relance pela janela, e voltou ao celular.

Ao seu redor, todos pareciam em outras realidades. À direita, um senhor de meia idade trocava mensagens com futuras parceiras no Tinder; à esquerda, um rapaz capturava criaturas que se materializavam no chão do coletivo, visíveis apenas através da lente mágica do smartphone. Como se não bastasse a volatilidade do mundo real, os homens ainda criam seus próprios universos, da forma com que quisessem, para satisfazer seus desejos. Menos metafísicos, mais reais, mundos e mais mundos são projetados sobre o plano terreno, onde todos interagem, todos compartilham, mas só existem por que as pessoas de carne e osso acreditam em suas existências. Parada agora na Rua Frei Caneca, Renata do Instagram percebeu a oportunidade de um clique perfeito. Através da janela do ônibus destacava-se a arquitetura neomoderna ao fim da passarela do samba, o símbolo máximo da festa pagã mais famosa do país. "Irônico". A praça da Apoteose carregava um significado que a professora de linguística conhecia muito bem, ascensão. Tornar-se Deus. Na cabeça de Renata ficou claro que Deus fez o homem realmente à sua semelhança.

A internet e a sua suposta blindagem da realidade poderia ser considerada mística, principalmente a alguns anos. Renata era muitas dentro de sua bolha. Em cada website ela assumia um perfil distinto, seja ele fútil, politizado, indignado, confiante ou feliz. Era só uma questão do que publicar, do que curtir, do que compartilhar. Renata era dona da sua personalidade virtual, criava-se da forma que quisesse, de acordo com seu humor. No entanto, não era capaz de distinguir com clareza o que era real e o que era inventado. Os universos se misturavam, as realidades se confundiam. O homem criou seu próprio universo dentro do vazio da sua vida terrena. Aquilo fez Renata congelar por alguns minutos, pensativa e profundamente triste. Sua ordem havia quebrado e mergulhava novamente na correnteza da realidade.

Finalmente, ao chegar na margem do rio, levantou os olhos vermelhos e desceu do ônibus. Alguns minutos depois, estaria em casa. Como todas as noites, seu celular entrava na reserva de bateria. Suas energias estavam se esgotando. Tomou um banho, olhou-se no espelho do banheiro. A visão não a agradava. Deitou-se e enxergou-se na tela do celular, sentindo-se consolada com a imagem que agora via. Compartilhou uma frase bíblica em seu Snapchat e sorriu ao ver que tinha novos seguidores. 

Com as cortinas fechadas naquela noite clara, bloqueou a tela, pondo fim ao seu resto de luz e deixando a escuridão da noite guiá-la rumo à luz da manhã. Sob a lua, adormeceu pensando em si mesma, decidindo-se como renasceria no dia seguinte.

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Alguém, em um lugar distante abria seu Snapchat e passava pelo perfil não muito interessante de uma professora de português, sem entusiasmo algum. Curtiu uma frase compartilhada por ela, não muito original. Apagou a tela do celular, sem ao menos refletir sobre o que tinha acabado de ler. Com trinta a três caracteres, a dor de Renata era obscura, invisível e perdida no caos: Seja feita a vossa vontade. Amém!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Uma sociedade de vitrine


Escrevo estas palavras do meu smartphone. Transcrevo meus pensamentos em palavras, como meu avô fazia em um guardanapo, no bar em que outrora frequentava. As deles morriam amassadas e jogadas no cesto de lixo, junto com algumas garrafas vazias de cerveja. As minhas transformam-se em bits, viajam a velocidade da luz, da palma da minha mão até algum lugar no globo, onde ficam armazenadas do servidor de alguma empresa especializada. Nem mesmo eu sei onde minhas frases foram repousar. Com alguns cliques, porém, posso recuperá-las novamente, bastando o acesso a essa gigantesca rede e sabendo quais palavras chaves digitar no topo do navegador. Navegamos de uma forma que os patronos da marinha nunca imaginaram antes ser possível: não apenas nas ondas eletromagnéticas dos sinais das telecomunicações, navegamos na liquidez da sociedade que nos cerca.

Flexibilidade é o termo que ocupa a cabeça dos grandes empresários e profissionais liberais mundo a fora. A grande tendência é ser capaz de adaptar os produtos e serviços oferecidos ao cada vez mais mutável mercado consumidor. O capitalismo que estamos submersos afasta-se dia após dia do megalomaníaco modelo fordista, tornando-se leve, enxuto, capaz de cruzar fronteiras como nunca antes visto, cada vez menos dependente dos espaços físicos e mais propício a aventurar-se em locais diferentes, sem medo de desaparecer subitamente. O capital abstraiu-se, desalocando suas forças do maquinário e mão de obra pesada, nas plantas industriais, para ações na bolsa e projetos de engenharia, dentro de escritórios em arranha-céus. Pela primeira vez na história da modernidade a relação de dependência mútua empresa-trabalhador parece estar caminhando ao seu epitáfio. Em seu lugar assume a grande nova dependência capital-consumo.

Por mais que Ford admitisse o contrário, sua estratégia de elevar os salários de seus operários era muito mais uma estratégia de manutenção da mão de obra altamente rotativa em suas fábricas do que torná-los consumidores de seus veículos. Passados cem anos, a lógica desdobrou-se ao avesso, com um intenso incentivo ao consumo que move a roda d'agua da economia mundial. O impacto dessa reviravolta é uma mudança completa de paradigma nas vidas humanas: passamos a ver o mundo com os olhos de consumidores, cada vez menos responsáveis pelas coisas que nos cercam.

O cerne da chamada liquefação da modernidade é a metamorfose de um mundo de produtores para uma sociedade de clientes e compradores. As relações entre as pessoas tornam-se cada vez mais descartáveis e frágeis; a relação com o público torna-se dia após dia mais distante, como se fôssemos apenas meros usuários desses serviços, não responsáveis pelo bem-estar coletivo; os interesses particulares ganham cada vez mais força, o individualismo cresce (o consumismo é uma satisfação solitária); a política torna-se um seriado de televisão, assistimos cada vez mais como espectadores, menos como cidadãos.

Enquanto digito esses caracteres, isolo-me na tela do meu celular, mas nunca estive tão conectado. Como o guardanapo do meu avô, o que escrevo pode se perder no limbo de informações da web e nunca ter um leitor. Mas a ilusão da conexão me incita a continuar digitando. A cada dia nos sentimos mais pertencentes ao virtual, mas menos existentes no plano físico. Passeamos pela vida como em um shopping center, julgando os momentos como vitrines, os acontecimentos como produtos e as pessoas como manequins, buscando aqueles que atendam unicamente as nossas necessidades individuais. Por esses corredores andamos solitários.

Cada vez mais solitários.

quarta-feira, 8 de março de 2017

MINIMUM - Libertação

Falsidades e artimanhas constroem castelos de cartas. O sopro da realidade abala sua estrutura. Trancamos em cofres, isolando-os da brisa que os podem desmantelar. Entre quatro paredes metálicas estamos restritos, enclausurados, isolados. Abrirão a tranca, pois, aqueles cujos atos são intimamente legítimos e as palavras carregadas da mais pura verdade. Substitui-se o papel por tijolos e concreto. Sem medo da tempestade, podemos sob a estrutura apoiarmos e, além do nunca antes visto, enxergarmos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O justo e a justiça

 

O convívio em sociedade baseia-se em acordos interpessoais entre todos os indivíduos que a compõe. Sejam explicitamente concordados ou introjetados pela moral na qual estão imersos, conjuntos de regras, valores e punições são os pilares de agrupamentos humanos desde o princípio. Quando os sans-culottes se rebelaram contra a monarquia parisiense, contestavam-se os abusos de autoridade da nobreza e seu caráter de dominadora absoluta de seus súditos. O acordo em vigor até então representado pelo poder pleno dos descendentes do Rei Sol perdia espaço para a democracia livre, igualitária e fraterna dos revolucionários. A sociedade estava em transformação, portanto os grandes acordos intersubjetivos que a mantinha unida também sofria a metamorfose.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão serviu como farol guia das grandes constituições republicanas contemporâneas, a base dos Estados de Direito ocidentais. Assim como o código de Hamurabi na antiga Babilônia, grandes convenções de normas regem os países do mundo moderno, determinando os direitos e obrigações de suas populações assim como as punições legais para os que desviam suas condutas. Olho por olho, homicídio por reclusão. Foram os grandes processos revolucionários que substituíram o primeiro afronte pelo segundo.

No entanto, as pessoas constantemente esquecem que o sábado foi feito a elas e não o oposto. A lei garante a justiça até o ponto que ninguém é injustiçada por ela. Em outras palavras o limite do estado de direito é a soberania popular e subjugar a segunda em prol da primeira é como a luar miar para cada gato: uma inversão de valores que não faz sentido. A democracia, em uma interpretação contextual, é o regime que permite ao povo modificar as próprias regras que o rege, garantindo assim não apenas os direitos da maioria, mas promovendo a indiferença entre os cidadãos, ao ponto que nenhuma característica intrínseca ao indivíduo (cor da pele, opção religiosa etc.) pese em situações de julgamento legal.

Assim como o rei Babilônico defenderia suas regras como a única capaz de manter a ordem social, o mesmo acreditavam os reis franceses e os grandes positivistas modernos. Ao remover o zoom da lente da história nota-se algo muito curioso: desde a revolução cognitiva, passando pela agrícola, industrial, capitalista foi sempre a falta de ordem que nos trouxe algum progresso. Quando o povo clama por justiça e a soberania popular prospera, as grandes mudanças sociais insurgem. Um dos grandes questionamentos do nosso tempo remete-se novamente aos princípios da república platônica: nossa organização política realmente garante essa soberania?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O grande sim



Sim. A vida é composta por uma babélica sucessão de "sims". Quando aqueles dois gametas se encontram, dentro nas infinitas possibilidades, um sim em um milésimo de segundo é necessário para que se dê início a uma nova existência. Mudamos nosso destino quando dizemos sim àquele outrora estranho que agora segura um anel em nossa frente, com os aflitos olhos esperando a simetria dos sentimentos. Sim após sim construímos os alicerces, erguemos e reformamos as paredes que dão forma e robustez à vida que ousamos fazer parte. Mas o que é essa vida se não uma preparação para o último e derradeiro sim, que todos insistem negar com tanto afinco.

O galope dos dias nos levam muitas vezes a caminhos distintos, na maior parte deles aqueles que não ousaríamos a trilhar se não fôssemos empurrados pelas grandes forças que nos guiam. Roda-se o relógio; claro, escuro e claro novamente; olhos se abrem e se fecham, somente para abrir mais uma vez. Seria nossa vida uma mera distração para o momento em que eles não voltarão a se abrir? Choramos quando os queridos se vão e sofremos em existência um sofrimento que apenas os que existem podem compartilhar. Ansiamos por momentos e experiências, nossos rostos se enrugam em preocupações, prezamos pela vida sem nos dar conta de que ela simplesmente é o agora. Hoje é hoje. A grande dádiva do presente é que ele simplesmente é. E não precisa de nada para ser. A cada momento dizemos sim ao presente enquanto somos arrastados pela correnteza do destino.

Pergunto-me se os nostálgicos não temem tanto o hoje quanto os pretensiosos. Afinal, a grande vantagem do futuro é que ele pode ser o que quiser, pois na realidade ele não é nada. O mesmo eu sinto do passado: uma mistura distorcida dos fatos e dos sentimentos que não mais nos pertencem. Seria o medo do Anjo de Vestes Negras um temor por não atingir a felicidade que o utópico futuro aparenta reservar? Ou ainda a nauseante possibilidade de ficar eternamente preso em um soturno agora? Não seria a aversão ao desaparecimento apenas uma forma com que expressamos o desprazer com um presente insípido?

Chegará, pois, o dia em que enfrentaremos o destino e pagaremos todas as dívidas que os viventes hão de quitar. Com o mais importante dos sims, o último fechará o ciclo: de onde viemos, partiremos. Abraçaremos a morte como um reencontro de velhos amigos, talvez amigável, talvez pouco pacífico. De qualquer forma, cabe a nós sob o véu da consciência aceitarmos ou não o inevitável. Colher o dia vai além de não esperar o amanhã; é antecipar o grande sim e deliciar-se, sem culpa nem remorso, dos pequenos grandes sims da vida terrena, um a um.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

MINUMUM - Fama

Movimentam-se milhões pela estorvadora curiosidade à vida alheia. Milhões em seus espelhos mágicos, contemplando através de lentes inquietas o enfadonho cotidiano de uma dúzia de caricaturas. Milhões em propaganda transitam sob eles. Porque nos importamos? Anônimos e famosos incitam multidões eloquentes de seguidores; demonstramos a eles o mais verdadeiro afeto e empatia, raramente exprimidos aos que compartilham nossas vidas. Porque tornamo-nos tão íntimos de quem nem nos conhece?