quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Carta a uma mortal


É difícil negar que a morte não tem sua beleza. O tinir das lâminas, os cânoros daqueles que sofrem e desferem os golpes, o perfume de sangue no ar, tornando ébria a mais pura das criaturas. Eu não sou um assassino. Mas presenciar o massacre da minha família me tornou frio. Frio como uma rocha dos cantos mais sombrios de Insweal, onde o sol não alcança e o medo rebrota.

Não sentia medo da morte. Não sinto. Não sou como você, eu nasci para a vida. Nasci para o brilho do leste, alimentando-me do nascer da manhã após uma noite desfrutando dos prazeres féericos. Ser mortal é viver olhando para o abismo, é a certeza do fim. Me diga, como é ser a mais fraca das criaturas, que nasceu pra servir? Criatura tão inócua e facilmente manipulada? Como é amar um mundo que está te sufocando e te matando a cada segundo? Não sinto medo, mas aprendi a respeitar e a odiar a morte. 

É dificil amar, mas o ódio me alenta. Ou, pelo menos, não sei amar sem odiar. Amava e odiava meu pai, Dain, Baleskin. E odiava amar a mim mesmo. Acima de tudo, odeio minha fraqueza. Um rei não pode ser fraco, submisso a nada nem ninguém. Por isso eu nunca quis a coroa, a supremacia de um grande rei feérico é um poder que algema. Meu maior medo é a minha própria fraqueza. 

Somos tão diferentes, vil mortal, mas nosso receio do futuro, nossas dubiezas do porvir nos entrelaçam mais que a coroa me permite admitir. Também quero encontrar meu lugar no mundo, por mais certo que os outros me fazem sentir que ele está. Olho ao redor e vejo o que não tenho, introjeto o desprezo e devolvo em vitupério. Você tem o que não tenho, um motivo, uma busca, tempo.

Valorize a finitude do tempo, a efemeridade das experiências. Por mais irônico que seja, ser uma mortal insignificante te afasta da angústia feérica do eterno, da perfeição intangível. E liberte-se dos fantasmas do passado e do temor do futuro. Mais vale um instante de êxtase e liberdade legítima do que uma eternidade taciturna, mesmo que nas torres mais luxuosas do palácio. 

Verba volant,
Grande Rei C. G. de Elfhame

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Inspirado no livro O Principe Cruel, de Holly Black

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Aquele que corta a terra

Naquela hora do dia, quando as sombras eram longas, certa era a companhia das três mulheres. A terra-mãe, ó bela e dourada Oxum, me fizera imortal e cuidara de mim com ternura, para que desse vida aos seus filhos e filhas, durante décadas, séculos. Meus cantos ecoam através das árvores, atraindo as caças e os caçadores, amigos e inimigos, que de mim retiram sua energia vital. A verdade, grande mãe, é que a imortalidade é a resignação do tempo. Passo, mas continuo; nasço e morro no mesmo instante, vendo por mim transitarem as mais belas criaturas mortais, zombando com a intensidade de uma alma passageira. Intenso sou quando Oxumaré me visita, mas não com o fervor da vida fugaz, não com a pujança daqueles que sabem que se vão. A muriçoca busca em minhas fronteiras onde despojar seus ovos. Sabe que são apenas poucos seus dias nos ares e logo retornará à terra, aos braços de Aiê, mas deve completar sua missão e deixar sobre os ares seus descendentes. Serão eles sua eternidade, uma eternidade que eventualmente se acaba, mas nas gerações se perpetua. Intenso é seu movimentar, na impetuosa busca pela continuidade.  Eu, no entanto, sempre estive e sempre estarei lá; passo, mas continuo. Se não es tu, donzela dourada, para acompanhar-me na imortalidade, seria solitário em uma dança contínua e enfadonha, cortando a terra com a mesma lâmina d'agua em todos os nascimentos do sol e da lua. Não tenho ovos nem descendentes, mas de mim depende toda a progenitura dessa terra, a minha missão é estar e partilhar. 

No entanto, minha bela Oxum, mulheres como aquelas faziam-me sentir a vida além das minhas raias. Na alvorada, cada uma trazia consigo um jarro de barro. Aproximavam-se de mim com respeito, curvavam-se de joelhos e enchiam o jarro com a fresca água da manhã. A algidez do meu toque aliviava as dores das mãos das senhoras, que pareciam ter semelhante idade. A musculatura de cada dedo relaxava ao me sentirem, penetrando suavemente sobre as feridas nas articulações e na palma de suas mãos. A vibração dos seus corpos reduzia-se, e a calma das margens os inundava. A experiência da perpetuidade, você compreende, deu-me a perspectiva do sofrimento, apenas as mais vividas criaturas conseguem o compreender. Aquelas mãos são de pessoas que sofrem. Os cortes que diariamente lavo não alimentam suas crias, sua boca. São cortes da exploração. Enquanto aquelas mulheres possuem dezenas, dezenas não possuem uma esfoladela que seja. Mas o meu toque matutino é o alívio às dores da labuta. Retornam com os jarros cheios, adentram a trilha que as reconduz de onde vieram. 

Voltam a mim quando as sombras são curtas, agora com o cesto de panos coloridos. Concordamos, donzela dourada, que as cores são os mais claros sinais de cisão entre as pessoas. As vibrantes cores daquelas roupas contrastavam com as desbotadas e surradas vestes das lavadeiras, que redobravam a delicadeza das mãos calejadas ao esfregar suavemente os tecidos. Claramente não é a delicadeza da mãe ao amamentar um bebê, ou do toque carinhoso à pessoa amada. Era uma delicadeza do medo, não natural. Um rasgo nos panos poderia ser retribuído com um às costas, o que claramente temiam as senhoras. Nesse momento, porém, não era incomum que adentrassem de corpo cheio às minhas águas, banhando-se de forma quase ilegal, fora dos olhos daqueles a quem serviam. Ah, mas como era revigorante, com eram quentes e arredondadas aquelas formas, energia pulsante adentrando a placidez das margens rasas. O sol as dourava e eu as sentia. Compartilhávamos naquele momento a plenitude, a eternidade de um segundo, momento em que toda a onipresença do tempo resumia-se ao contato entre dois filhos da terra-mãe, mesclando a calmaria ao padecimento. Sentia, de forma quase imediata, o raro sorriso dos seus rostos; as lágrimas, por outro lado bem mais comuns, eram uma frequente adição as minhas várzeas.

Naquele outro dia, no entanto, não vieram. No seguinte, vieram duas. Tocaram-me como de costume, ao encher o vaso, e eu senti a frieza das outrora peles escaldantes. A frieza da perda, minha nobre Oxum, sinto em todos os seres vivos. Sinto no lobo que perdeu a ninhada ao caçador, ou no pássaro que lesionou as asas e perdeu os ares, ou ainda no girassol que perdeu sua primeira pétala após seus dias ensolarados. Mas as perdas humanas eram distintas. Algumas não lhe eram perdidas, eram-lhe tiradas. Das trivialidades mortais como comer ou dormir, à totalidade da vida. Eram ceifadas pelos seus iguais. Essas eram perdas mais gélidas, rompiam-se os elos da espécie, a unidade de ser. Nos conectamos naquela manhã, e nos comunicamos. Poucos são os que ainda me compreendem, as vozes das águas apenas ressoam naqueles que param e ouvem com todos os seus sentidos. Mas, por mais fantástico que pareça, elas me ouviram, e eu as ouvi. Não choro, mas absorvo as lágrimas com pesar. Nos abraçamos, eu, as mulheres e a mata, enquanto os jarros vazios padeciam ao nosso lado. 

Das minhas nascentes á foz, grande mãe, as criaturas pulsam de formas distintas. Mas a morte, essa pulsa apenas nos que estão vivos. Talvez um dia eu saiba o que é o fim, talvez aqueles a qual sirvo me matem de forma vagarosa, até não sobrar um único fio de água sobre meu o leito. Até lá, mantenho a experiência das mulheres, que continuaram sendo três pelos longos anos seguintes que as duas senhoras me visitaram diariamente. Pode ser esse sentido do fim, um afluente. Desaguamos nossa vida nos outros e, na seca, nos eternizamos nas águas que fluíram de nós ao manancial.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Retrospecto - Diário da Quarentena

O amor é amálgama. Nos versos de Camões, "transforma-se o amador na cousa amada [...], em mim tenho a parte desejada". Na mecânica, uma liga entre dois sólidos não é possível sem energia. Pode ser energia térmica, que arde e aquece até derretê-los. Em um novo estado, as diferentes matérias combinam-se em como líquidos, para depois retornar ao sólido em uma nova composição, única e unida. Pode ser também energia mecânica. Nesse caso, é necessário atrito, muito atrito ou ainda choque, compressão e estresse dos materiais. Isso pode os fragilizar, alterar suas propriedades fundamentais e criar pontos de tensão para possíveis rupturas no futuro. A dor e o ardor que transmutam-se na tábua de esmeralda do amor foi genialmente explorado pelo poeta português: como se pode fazer bem se tão contraditório é?

Contraditório e romanesco foi o ano de 2020. Um ano que colocou o viver sobre uma nova perspectiva. O viver e o conviver. O efeito estupefacente da pandemia expôs as entranhas do sistema social sobre o qual o mundo boia, sobre o qual a frágil e vulnerável raça humana tem empilhado os maiores feitos ao longo dos séculos. A morte, o caos e a solidão mudam a forma das pessoas verem sua própria existência; mudam a forma das pessoas encararem a realidade que a cercam; mudam a forma de prospectarmos e olharmos adiante. A morte coloca tudo em perspectiva. Ela nos custa tudo, custa a vida. Para muitos, foi o que definiu o início da nova década.

No entanto, existe uma palavra melhor para definir o ano pandêmico: o estro dos grandes poetas, o "não querer mais que o bem querer". 2020 pôs o amor à prova, em escala global. O que foi posto em cheque não foi o amor poético e romantizado, aquele amor dos casais apaixonados e dos mestres da Academia de Atenas. A humanidade teve que encarar o amor real e pragmático, aquele que traduz-se em atos concretos, a ponta de lança das relações humanas. O amor que colocamos à prova foi o amor cristão original, o amor de caridade e entrega, a fraternidade em sua essência mais pura, o sacrifício pessoal na cruz para a salvação dos outros. É fazer valer, como sociedade, o artigo terceiro da declaração dos direitos humanos.

As escolhas se apresentavam na frente de cada um, amar ou não amar, a cada dia. O ato de isolar-se para proteger; o ato de privar-se do prazer para que se fosse permitido aos outros viver; o ato de abrir mão da alegria instantânea para que ela fosse compartilhada no futuro. Doação do imediatismo, doação do próprio ego. Essa foi a essência do amor pragmático de 2020. Muitos tiveram êxito, muitos fracassaram. De qualquer forma, ele transforma. Transformou as amizades, separou quem ama de fato e quem se ama de fato. Transformou as relações pessoais, valorizando o caloroso dentro do frio isolamento. Transformou a caridade: não se faz por alguém, se faz por todos. 2020 mostrou, acima de tudo, se estamos preparados ou não para amar.

Na pandemia, vemos nós próprios nos outros. É mais um poder do amor, nas palavras do poeta lusófono: um claro espelho, onde no outro vereis a vossa alma. Uma mistura de sentimentos que só faz sentido quando vivido e partilhado coletivamente. Passamos e estamos passando juntos pela avalanche, por mais que existam gigantes rolando pedras pela encosta para tentar nos derrubar. Aos poucos que ainda optam por amar, que 2021 traga o sino da esperança ao campanário do carneiro. De 2020, fica a saudade, principalmente daqueles que se foram, literal e figurativamente. Segundo Camões: "Enquanto houver no mundo saudade, quero que sempre seja celebrada".

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Dissonante - Diário da Quarentena

 

Não à toa aquele era chamado Pavilhão de Aurora. Os vitrais prismáticos ao leste refletiam o raiar do amanhecer, de forma que o seu interior enchia-se de uma paisagem caleidoscópica de cores e imagens abstratas. Nada como direcionar de forma correta os raios solares para se ter um dos mais belos shows de luzes, causando inveja a qualquer diretor da West End. O espectro de cores invadia o palco do pavilhão, onde a pianista dedilhava. Era um espetáculo passageiro, menos de uma hora durante a alvorada. Sabendo disso, era nessa hora que ela entoava suas bachianas. De fato, ela apenas repetia inúmeras vezes a introdução do segundo concerto de Brandenburgo. Segundo a tradição austríaca, quando Bach a compôs, as estrelas se puseram a dançar no céu a valsa do quarto dia. As notas ressoavam nas paredes, as luzes e a música entrelaçavam-se como amantes platônicos, apaixonados e distantes, completando-se e jamais se tocando. No palco, a pianista solitária acertava cada nota, cada tom, cada tempo. Transbordava-se de êxtase em cada arpejo, e subia de tom como na escadaria de Jacó. Estava solitária no palco. Estava solitária em todo o teatro.

Naquela hora deveria ocorrer o concerto da alvorada. No final do ano, tocavam-se bachianas intercaladas com mestres russos, compondo a temática natalina da casa. As manhãs eram cheias de energia: o canto dos instrumentos, o espetáculo celeste e o calor do público compunham a tríplice. A pianista não se apresentava nesse horário, era exclusivo para a orquestra dos grandes mestres. Ela ainda não fazia parte desse seleto grupo e talvez nunca fizesse. Seu coração vivia nas teclas do piano como protagonista de sua existência e assim queria que ele fosse ouvido, sozinho, para encanto de um público entorpecido pelo soar do encordoamento sobre a tábua harmônica. Admirava os grandes solistas, os mestres do dedilhado e discípulos de Beethoven, aquele que ouvia com o tato. Poucas foram suas apresentações como vedete, em geral a um público diminuto e em horários pouco nobres. Minha nossa, mas como era diferente tocar sob o nascer do sol! Era ele, o astro de Hélio, o único que poderia roubar-lhe o protagonismo. Era como banhar de cristal uma escultura de um escultor barroco, preservando-a dos olhares alheios que a corroem. Tocava, então, para a plateia vazia.

Entrava no teatro ainda durante a madrugada, conhecia o macete para destravar a porta dos fundos sem precisar da chave. Tocava para ninguém, sempre as mesmas notas, todas as manhãs desde aquele outro dia. Tocava, na verdade, para o dia que raiava. Era a forma que tinha de unir-se ao sol e buscar forças no calor que ele emanava. Naquele outro dia, tudo lhe faltava: energia para sair da cama, motivação para dar passos, esperança de que o poço tivesse um fundo. Agora tocava, portanto, para o grande astro, que lhe enviava a mais bela luz para compor o espetáculo da manhã, cuja bachiana sonorizava a amálgama perfeita dos sentidos. Aquele outro foi seu dia da Normandia, o seu ataque final ao inimigo interno. Suas mãos tremeram quando levantaram o tampo daquele piano sobre o palco pela primeira vez. Havia meses que não tocava nenhuma nota, e as primeiras soaram como agulhas sobre uma ferida aberta, sem anestesia, sentindo suturar de forma pouco usual a úlcera em seu peito. Dentre todos os motivos, porém, em todas as manhãs ela tocava para ele. Sim, era para ele que tocava.

Quando ele a levou à primeira aula de piano, mal conhecia o instrumento. A menina estava apaixonada por aquelas teclas bicromáticas desde que o vira pela primeira vez em uma loja da cidade. Insistiu, e ele a apoiou. Ao longo da trajetória, ela pensou em desistir inúmeras vezes. Não tinha destreza nos arpejos e faltava-lhe dedos para tirar Schubert do papel. Ele a ensinou a fechar os olhos para os outros e atiçar os ouvidos aos sons das cordas do instrumento. Era o dedo que faltava à ela. A jovem pianista não pode se despedir daquele que esteve ao seu lado na fila das audições e na primeira fila de seu solo de estreia. A última fila que estiveram juntos foi a da UTI, após dias de espera por uma vaga. O mundo estava em colapso, o sofrimento daquele que amava dilacerava seu brio, sentia-se indefesa, impotente. O poder que sentia ao dobrar o piano às suas vontades era uma ilusão que não se traspunha à vida real. Ele sofria, faltava-lhe ar. Antes de assumir seu leito, disse à filha que guardasse suas lágrimas. Elas poderiam lhe ser úteis no futuro.

Naquele outro dia, quando viu o sol atravessar os vitrais sobre a plateia vazia pela primeira vez, já se fazia um mês que seu pai partira. Fora levado por aquele que paralisava o mundo. Para a pianista, no entanto, era a tristeza que a paralisava. Uma tristeza sem lágrimas. Apenas o mais profundo pesar e escuridão de pensamentos. Naquele outro dia, não saíra de casa com o intuito de renascer, mas de abandonar sua existência. Tiraria sua vida sobre o palco, como a apoteose do seu drama, o príncipe da Dinamarca escolhendo não ser. Naquela madrugada, com os comprimidos no bolso, abriu a porta dos fundos e adentrou o pavilhão como Anna Karenina, presa em seus próprios sentimentos de pesar. Seu posfácio precisaria ser musicado conforme os mestres a ensinaram. A arte, que é a libertação, pode ser o sofrimento e a desilusão de uma alma despedaçada. As primeiras notas saíram em um tom estranho, fora da bela forma que o alemão a compusera. Tecla após tecla, som após som, dor, dor, dor, dor. 

Hoje completam-se alguns meses daquele outro dia. Quando as luzes invadiram o palco, as notas, finalmente, entraram em harmonia. Foi aí que vieram as lágrimas. Represadas, vieram como seu pai havia previsto em seu último olhar, seu último sorriso. Vieram e lavaram. A sua tríade se completava: luzes, sons e lágrimas. Tocava a introdução, repetia e chorava, repetia e chorava. Quando a alvorada enfim se foi, levantou-se e saiu do palco. Voltaria no dia seguinte, e no próximo, e no posterior, até o dia de hoje e além. As lágrimas a tempo já secaram, o seu espetáculo da manhã era, agora, sua dose diária de morfina. Finalmente, hoje, tocava para si mesma e, sob a benção de Aurora, Hélio e Bach, atravessava o mundo dissonante, onde a dor, o medo e a esperança formavam a tríade da realidade. Ao final do amanhecer, fecha o piano e agradece ao público oco. Eles se veriam no dia seguinte.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O sino - Diário da Quarentena

 

Espera-se ansiosamente a quinta badalada. Isso representa, para o jovem operário, o fim de sua jornada de trabalho. Desde a primeira hora, na verdade, nada ocupa mais a mente do rapaz do que a perspectiva do fim. É na quinta badalada que seus problemas se encerram, se guardam nas gavetas do vestiário trancadas à chave. Era o milagre do sino. Na quinta badalada o rapaz estaria livre. Livre para que, na verdade? Livre, apenas. 

É lá fora que está a vida, não aqui. Lá as pessoas são alegres, sorridentes. Lá os casais trocam confidências e se amam despretensiosamente, sem regras de comportamento ou metas a bater. É lá que podemos dançar, beber, sair de nós e do nosso mundo, migrar para onde o tempo e o espaço não fazem tanto sentido. Aqui é o martírio, a prisão de Ícaro. A quinta badalada são as asas. Asas da liberdade e da morte.

Lá fora também está a morte. A violência, a dor. A dor é o caminho tortuoso. Morte sem dor pode ser um suplício, um lapso da existência em ruptura. A dor é a cruz. O poeta de Moçambique dizia que o mundo seria melhor se todos os mortos tivessem sido enterrados sorridentes. A morte é um processo degenerativo, morre-se em etapas. Primeiro morre a confiança, o afeto; depois se vão os amigos, a família, as âncoras; vão-se as horas, os dias, as luas e as luzes; por fim se vai a esperança e a fé. Quando nada mais resta, padece, finalmente, o corpo e a existência. Nesse processo, a dor toma o lugar do alegria; no leito derradeiro sobram-se poucos sorridentes. 

Os olhos jovens, no entanto, pouco enxergam da dor do oeste. O epílogo da existência é uma preocupação longínqua. A esperança arde, como as chamas do sexto círculo, chamando-os aos pecados do mundo que os aguardam. O trabalho é a prisão; o sino, a libertação. Esse é o dilema da esperança: enquanto ela se faz presente, o presente torna-se transitório. Em um presente transitório, pouco se faz para viver nele, no aguardo do futuro ideal construído no amálgama da esperança. Ela dá energia para prosseguir, suportar, mas pouca voz de comando à ação, à transformação.

O sino é a esperança. Tudo estará melhor após a quinta badalada. Basta o sino ressoar, chegar aos ouvidos dos trabalhadores, que a vida se inicia. O que fazer antes do sino? Não há antes. Há apenas o depois. E o mesmo se repete no próximo dia. E no seguinte. E no seguinte. A crueldade da esperança é a transitoriedade. Hoje ela é uma rocha, amanhã deve se metamorfosear para permanecer firme. O sino irá tocar, a liberdade chegará. Mas até o sol nascer mais uma vez. Na nova alvorada, espera-se o metal ressoar mais cinco vezes. 

O jovem caminha para casa, era o sexto badalar do sino. Sobe as escadas do prédio quando ouve-se a sétima. Come na oitava, banha-se na nona. Olha a noite escura pela janela, ouve-se os gritos distantes da cidade, décima. Na décima primeira o sono assoma-se. No abrir dos olhos, a esperança renasce, os grilhões estão novamente selados até a quinta badalada. Na quinta badalada o rapaz estaria livre. Livre para que, na verdade?

Livre, apenas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Curtas I - Diário da Quarentena

 

Óculos com grau

Uma das minhas melhores aquisições recentes foram as lentes com grau para meus óculos escuros. Me permitiram ver com nitidez o azul da alvorada, o degradê do crepúsculo, experiência que me era apenas parcial antes delas. Nada me faz sentir mais pertencente a este mundo do que o raiar da aurora, que, de tempos em tempos, precisa-se tornar presente para recarregar minhas energias. Não só ela, na verdade. Um banho de descarrego no mar; a brisa fresca vinda do horizonte; a paisagem natural das montanhas. Preciso de um pouco de tudo isso. As novas lentes escuras me fizeram ver o que antes eram luzes e contornos borrados. Costumo ficar com elas até a noite cair por completo, observando o pôr do sol da varanda de casa, por de trás dos prédios. Outro dia me questionaram como eu enxergava à noite com elas. Olhei seu rosto com uma expressão de paz, apenas eu entendia. Pena que não conseguiu ler meu olhar, quando lhe dei a resposta.

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Invisibilidade

O livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão me mostrou como somos entregues a um mundo pré-moldado e acabamos nos encaixando e sofrendo com relações materiais e sociais que nos envolvem. Um soco no estômago! Eurídice e muitas mulheres poderiam ter sido, mas não foram, engolidas pelo padrão que esperavam delas, tornando-se invisíveis. Metaforicamente, a invisibilidade pode ser definida como tudo o que não é visto, não por sua inexistência física e translucidez visual, mas aquilo que não se vê simplesmente por não se olhar atentamente. A invisibilidade de Eurídice é, em partes, um auto-engano daqueles que olham e não querem ver. Isso é endêmico. Em uma era de informação rápida e pouco veraz, o filtro individual da invisibilidade nos ofusca o que não queremos saber, o que discorda de nós, o que nos desconforta. O racismo, a misoginia, o antagonismo, a doença, tudo pode se tornar invisível se decidirmos não querer ver. Pior é quando o fazemos de forma coletiva. Eurídice nos faz ver a pessoa que lá está, atrás da capa. Sempre há pessoas lá atrás.

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Ainda há tempo de sorrir

Rubem Alves diz que a beleza não elimina a tragédia, mas a torna mais suportável. Diz, não disse, pois ainda ressoa. A beleza é aquilo que perdura, uma mina de sorrisos. Ao mesmo tempo é a mais particular das percepções. A beleza do canto do bem-te-vi, do horizonte da cidade iluminada a noite, dos cabelos dourados da pessoa amada, do olhar caloroso da mãe. Cada belo detalhe que compõe o todo é como o caleidoscópio, em que a beleza é composta pelos caquinhos que formam os fractais. Quando os belos vitrais se quebram, podemos colher os cacos mais coloridos, fazendo a mais bela imagem no caleidoscópio. E é a nova beleza que nos faz sorrir e nos dá forças para refazer as janelas quebradas.

domingo, 23 de agosto de 2020

Mascarados - Diário da Quarentena

 

Segundo Nietzsche, algumas mensagens precisam ser escritas com sangue. Alguns cenários só podem ser retratados com pincéis rubros e úmidos, sobre uma tela manchada. A pura perversidade, fenômeno que Edgar Allan Poe descreve como um paradoxo da natureza humana, o agir pelo agir para um sádico deleite pessoal, essa precisa ser registrada como o filósofo alemão espera que façamos. Não há inocência na perversidade, é a moralidade oculta sob a névoa, o prazer de libertar-se e infligir o sofrimento e a dor. O paradoxo de Poe baseia-se em um sadismo intrínseco a todos nós, em que somos todos perversos em algum grau, mas a convivência nos força a controlar e condenar a perversidade como forma de satisfação individual. No entanto, o prazer move e, uma vez naturalizada, somos capazes da mais pura perversidade sem qualquer consciência moral e social que nos impeça de agir. A hipocrisia é a escora desse paradoxo, como o escritor inglês nos leva a avaliar, e não há imunidade contra ela. Quando menos esperamos, criamos um contexto, partejamos a hipocrisia e a perversidade apresenta-se para o regojizo coletivo.

Durante o carnaval, os principais aristocratas italianos vestiam suas máscaras e iam para as festas de rua. Trajando as pomposas ou mais discretas máscaras, os nobres protegiam suas identidades dos olhares invasivos e garantiam momentos de libertação dos protocolos sociais que os limitavam do prazer pelo prazer. Era a devassidão em sua essência, o anticatólica ocasião de deixar-se levar pelos impulsos da carne e pecar como nunca, no país berço da religião romana. Nesses bailes de máscaras, a perversão dos valores sociais vigentes era o que imperava, o anonimato era o passe livre. O pacto do carnaval era velado, todos sabiam o que se passava, todos sabiam das imoralidades e quebras de decoro que escondiam-se por baixo das fantasias. No entanto, a festa continuava ano após ano, semeando a mais pura hipocrisia entre aqueles que diziam-se inquisidores morais. Nas palavras de Rubem Alves, ser é perceber; não se vê e não se fala, não é.

As máscaras que na Itália ocultavam os olhos, hoje cobrem o nariz e a boca. É um bloqueio para a contaminação em massa do vírus que nos assola. Útil quando prudentemente empregada. Não obstante, é possível traçar um paralelo social que atravessa o velho mundo e chega às ruas das cidades brasileiras. O contrato social dos mascarados, como ouso chamar, enterra a frágil auto-quarentena em que tentávamos viver. Os números são os arautos da hipocrisia: as mortes pelo coronavírus não cessam, a pandemia não se apresenta sob controle e sabe-se que o isolamento e o distanciamento são nossas mais efetivas armas de combate para evitar a chacina. Mas os novos mascarados saem às ruas. Os foliões enchem os bares, aglomeram-se em churrascos, fazem festas e deleitam-se com o calor da convivência. Lotam shoppings, ruas, igrejas. O pacto velado repete-se — todos sabem, todos ignoram. Esse, porém, é mais perverso do que os dos aristocratas italianos, pois é um passe livre para que a morte chegue onde dificilmente chegaria e ceife a vida de inocentes pelo prazer e curtição alheia. Novamente, ser é perceber.

Faço meus os pequenos olhos de Drummond, incapazes de ver a realidade do "mundo que se esvai em sujo e sangue". A pandemia extrai de cada um de nós o suco da perversidade e da falta de empatia, escancarando os egoístas explícitos e revelando os egoístas vexados. O sangue com o qual se conta essa história é abundante e diverso, somando mais de uma centena de milhar de tinteiros. Não hei de sujar minhas mãos para que esse relato seja em vão. Serão lembrados todos, os que se foram e os que permitiram que fossem. Assim como no carnaval, após as festas vem a ressaca. O que Poe não deixa de destacar é que a perversidade deixa marcas profundas e dolorosas, tanto nos que sofrem, quanto nos que dela desfrutam. Marcas psicológicas individuais, marcas na convivência coletiva, marcas nas relações entre as pessoas. A quarta-feira de cinzas nos aguarda.